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sábado, 26 de setembro de 2009

Ao tempo

"Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade."

Friedrich Nietzsche

Escrevo-te porque a saudade fez do meu coração moradia. Esvoaçam lembranças dançantes na memória, nublam os olhos, inundando-me com chuvas de saudade e melancolia. Saudade e melancolia cavam buracos no coração e alicerçadas nas lembranças constroem seu abrigo.
Escrevo-te porque encurralam-me essas paredes amareladas de tempo perdido, sufoca-me o perfume estonteante preso em cada lembrança e que envenena docemente. Reminiscências de recordações que repetem-se, que à memória nunca envelhecem, alucinando-me calmamente.
Escrevo-te porque quero que estendas teus braços de compreensão até os meus, envolvendo-me no teu abraço mais demorado.
Peço-te o controle dos ponteiros do teu relógio e que os meus passos possam entrar em sincronia com a sinfonia dos instantes.
Sei, o que peço é muito, mas quereria eu poder controlar os ponteiros do teu relógio para atrasar sempre a chegada do trem da saudade com seus vagões cheios de lembranças e que quando parte deixa trilhos de melancolia. Quereria eu poder sincronizar meus passos com a sinfonia dos instantes para que nenhuma nota se perdesse na fugacidade do momento, para que cada instante carregasse uma vida inteira...
Escrevo-te porque estou tonta de rodopios de lembrança levando-me envolta de saudade nas voltas da memória. A minha memória é um arabesco de lembranças e o meu coração um jardim de saudade regado com melancolia.
Escrevo-te porque cansei do filme antigo que virou minha vida.
Escrevo-te porque tenho medo de perder-me dentro desse labirinto de lembranças, afogar-me nesse mar de saudade e melancolia...
Peço-te tempo um novo tempo, um outro tempo, tempo de primavera. Quereria eu um tempo para recomeçar, para colecionar novas lembranças, lembranças com cheiro de coisa boa, ao invés daquelas já velhas e tão repetidas com cheiro de passado morto, para guardar uma saudade no peito regadas com felicidadezinha, enfeitadas com sorriso de Sol. Quereria eu encerrar esse outono dentro de mim.
Pense no meu pedido com esmero...

P.S.: Escrever-te-ia uma canção se eu conhecesse uma palavra tão árida e também tão acetinada que rimasse com tempo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O Sol de um novo dia

"Finda a tempestade
O Sol nascerá..."

Nara Leão

Finda a tempestade
Nasce o Sol de um novo dia
Floresce calmaria
Sopra a brisa serenidade

O tempo rodopiou
Colorindo o céu cinza solidão com nuances azul gargalhada
Vestiu-se com esperança verdejante a relva outrora acastanhada
Ouço o vento cantarolar que pra longe a inquietude levou

E quando o Sol no horizonte esmaece
O novo dia adormece
Envolto no luar

A noite acolhe-me em seu manto
Silencia os pensamentos, embala a tormenta, enxuga o pranto
E o Sol de um novo dia amanhã nascerá...

sábado, 1 de agosto de 2009

Depois de muito tempo

"É triste saber que um dia vou ver você passar e não sentir cada milímetro do meu corpo arder e enjoar. É triste saber que um dia vou ouvir sua voz ou olhar seu rosto e o resto do mundo não vai desaparecer. O fim do amor é ainda mais triste do que o nosso fim."
     
Tati Bernardi
     
Então virá o dia que tu vais passar por mim e eu não vou sentir uma alegria desvairada percorrendo inquieta as ruas, travessas e vielas do corpo com destino ao coração, fazendo-o saltar agitado, batendo acelerado no compasso de uma escola de samba acompanhado do balé de borboletas, flutuando graciosas no estômago.
A face não vai pintar-se com aquele corado bonito da emoção que mistura-se com a timidez, nem enfeitar-se com aquele riso largo de menina boba, nos olhos não vão serenar estrelas cintilantes iluminando o negrume deles.
As mãos não vão suar ansiosas à espera da companhia das tuas, nem meus braços vão desejar serem acolhidos pelos teus, nem minha pele vai desejar ser afagada com teus carinhos, eu não vou sentir arrepios de felicidade na presença tua, nem as pernas trêmulas ao aproximarem-se de ti, a voz não vai gaguejar, embaralhando as palavras.
Lembranças não esvoaçaram dançantes na memória.
Então virá o dia que tu vais passar por mim e eu sentirei apenas uma alegria inconsciente, mansa, caminhando serena pelo corpo sem pressa de chegar ao coração e quando chegar encontrará um coração amiúde de amor, mar de calmaria, solitário do balé de borboletas.
A face continuará pálida. Semblante pintado com tranquilidade, enfeitado com um riso delgado, os olhos cobrirão-se com o véu de uma noite nublada.
As mãos ficarão imóveis à espera apenas de certezas, meus braços abrirão-se para o novo, abraçados ao recomeço, minha pele será afagada pela brisa que sopra em direção à outro caminho, arrepiando o corpo a brisa fresca cheiro alegriazinha nova. As pernas ficarão firmes, a voz falará indiferente e as palavras soarão como silêncio.
Apenas um branco na memória...
Então virá o dia que tu vais passar por mim e eu saberei que chegou ao fim aquele amor, serás lembrança morta, passado murcho, recordação esfumaçada pelo tempo, e vai doer... Tanto!
Tempo, não apague da memória as velhas recordações que guardo dele, deixa ao menos eu ter lembranças...

terça-feira, 28 de julho de 2009

O espetáculo

"Dança o tempo sem cessar..."
     
Chico Buarque
     
Dança o tempo incessante, incansável... Às vezes dança o tempo com a graciosidade do balé. Às vezes nos conduz com a leveza da valsa. Às vezes nos leva no compasso agitado do rock.
O acompanhante do tempo nessa dança? Eu, tu, ele, somos todos nós.
Às vezes perdemos o passo, e dança o tempo sozinho nos embalando numa melodia clássica, atônitos com as notas musicais do relógio...
O palco para a apresentação do tempo, a vida. O piso desse palco, nosso corpo, e o tempo vai marcando esse piso com seus passos, traçando caminhos com linhas finas, grossas, suaves, árduas, enrugando a pele, manchando o corpo com seus movimentos.
Segue a dança, a música não pára, o palco é sempre o mesmo, o piso vai desgastando e o tempo não pára para repararmos o desgaste. Às vezes o desgaste é mais profundo, rompe as linhas do corpo e invade o olhar nublando-o, paralisa o coração, envelhece a alma. Às vezes a dança do tempo é amadurecimento, às vezes só apodrecimento.
Tempo e vida, espetáculo infinito que se mede, que se limita, vida que se enlarguece e se abrevia com o tempo, e quando finda se eterniza na memória dos corações que ficam.
E somos todos nós simultaneamente artista e plateia. Se somos somente artista atropelamos o tempo, vivemos uma vida sem saber que ela está sendo vivida, vivemos à frente do tempo, apressados. Se somos somente plateia o tempo nos atropela, a vida passa diante dos nossos olhos como um flash, não podemos repetir a dança.
Mas chega um dia que o corpo cansa, ofega com os passos do tempo, o coração desacelera, a alma pede sossêgo e o tempo nos embala num tango. Fecham-se as cortinas, desarma o palco, fim do espetáculo.
Paralisa a dança, a música silencia, adormece para sempre o artista e a plateia, sai de cena a vida.
Talvez o espetáculo continue invisível aos nossos olhos em outro palco... Quem sabe? Mas o tempo? O tempo continua dançando incessante, incansável...

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Volta tempo

"A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar."
               
Rubem Alves
           
O céu era um manto azulado bordado com estrelas cintilantes. Algumas desprendiam-se do céu e caiam bem na ponta do nariz. Peguei as estrelas na palma da mão e a cada uma fiz um pedido e guardei no bolso, apertadinhas.
A Lua estava enorme, imponente, uma beleza ímpar. Era a atração principal do espetáculo celestial. A Lua parecia uma maestrina regendo uma orquestra de brilho.
E do meu lado apenas minha velha companheira - a saudade.
Enquanto o sono não me embalava em seus braços, contava a Lua do meu amor por aquele moço, das lembranças de um pretérito-mais-que-perfeito, da saudade que não cabia mais no peito e escorria num canto do olho. Contava de quão bom era aquele tempo. Tempo de sorrisos largos, brilho no olho, mãos dadas... beijos açucarados...
A saudade daquele tempo deixava o peito pequeno e a noite longa demais.
Outra estrela cruzou o céu, e minha alma sussurrou 'Volta tempo, volta tempo, volta tempo'.
Fechei os olhos e fiquei a noite inteira esperando o tempo voltar...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Foi só o tempo que errou

"Será que fomos apressados
Ou foi o tempo que parou
Será que estamos parados
Congelados no espaço..."

  
Kid Abelha
  
Tempo, és o senhor da razão, és o remédio pra todos os males, e sempre ages no tempo certo. Mas será que o tempo está mesmo sempre certo? Prefiro acreditar que não.
Prefiro acreditar que o tempo às vezes tropeça, cai, escorrega... Perde-se pelos caminhos, percorre outros mais longos... Prefiro acreditar que o tempo também erra, comete equívocos...
E quanto a você e eu? Será que fomos cúmplices do tempo ou o tempo foi nosso cúmplice? Será que fomos apressados ou foi o tempo que se apressou e precipitou nosso encontro? Será que fomos protagonistas desse desencontro ou o tempo foi o grande vilão?
Quanto a você e eu, prefiro acreditar que o tempo tenha errado sim..
Prefiro acreditar que o tempo roubou de nós aquele brilho no olhar, prefiro acreditar que o tempo precipitou nosso encontro, agindo errado sem pensar... Prefiro acreditar que o tempo parou nesse desencontro.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A sintonia do tempo

"O primeiro remédio que dizíamos, é o tempo. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba."
    
Padre Antônio Vieira
    
Disse certa vez Machado de Assis: 'Nós matamos o tempo, mas ele nos enterra', e de fato nós até podemos tentar enganar o tempo, mas o mesmo impõe sua vontade sobre nós. Nada escapa a transfiguração do tempo. A acidez do tempo corrói qualquer estabilidade. Desconheço algo imune ao poder do tempo.
Não há amor que não esbarre nas barreiras do tempo, não há amizade que não se intimide com o olhar do tempo, não há relacionamento que não se curve diante do tempo, e se dizem que o tempo não cura tudo, com certeza não há dor que não se amenize com o passar do tempo.
O tempo pode não apagar lembranças, mas borra algumas, desgastando outras. O tempo pode não separar duas pessoas totalmente, mas afasta. O tempo pode não fazer com que esqueçamos tudo, mas faz com que nos esforcemos pra lembrar.
Alguns chamam o tempo 'senhor da razão', pois o tempo age no tempo certo pondo as coisas no seu devido lugar. Outros o chamam 'remédio para todos os males', pois não há mal que o tempo não cure. O fato é que a sintonia do tempo com a vida é perfeita - Só o tempo nos impulsiona rumo ao novo.
O tempo nos faz questionar, refletir, repensar, recomeçar e construir um novo fim, corrigir para acertar o que estava errado, ousar, abandonando o velho e tornando possível que os pontos-finais encerrem o que passou, sempre acreditando que tempos melhores virão.
O tempo faz com que nos apaixonemos outra vezes quando antes estávamos presos a amores eternos. O tempo faz com que conheçamos novas pessoas quando antes estávamos ligados a pessoas que não somavam. O tempo faz com que nos relacionemos outras vezes quando antes estávamos mergulhados em relações sufocantes. O tempo ameniza dores fazendo com que esqueçamos o medo de sofrer novamente para que assim possamos seguir em frente - Renovados e amadurecidos pelo tempo!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Perdidos no tempo

"Em algum lugar no tempo
Nós ainda estamos juntos
Em algum lugar
Ainda estamos juntos
Em algum lugar no tempo
Nós ainda estamos juntos
Pra sempre, pra sempre
Ficaremos juntos..."
  
Biquini Cavadão
  
Em algum lugar no passado ainda estamos juntos. Perdidos num tempo que não passa, presos a uma vida que não segue, arrastando memórias, misturando o passado em meio ao presente.
Ainda estamos juntos, eu sei. Perdidos num tempo que não passa, vivendo de 'ontens', contando e (re)contando a velha história de sempre, cheios de velhas novidades.
Em algum lugar no passado ainda estamos juntos. Perdidos num tempo que não passa, colecionando lembranças amereladas, coloridas com o cinza do nosso pretérito quase perfeito.
Ainda estamos, eu sei. Perdidos num tempo que não passa, estamos juntos e para sempre ficaremos juntos.