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terça-feira, 7 de julho de 2009

Revelação

"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
     
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
     
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?"
     
Cecília Meireles
     
Aproximei-me tontamente do espelho, atravessando a solidão da sala vazia. A estranhesa. O susto. A expressão de espanto. Não reconheci o reflexo que apresentava o espelho.
Um reflexo anônimo de lembranças.
Permaneci atenta ao reflexo desconhecido, presa à imagem delineada de segredo, envolta de procura.
Um vulto cinza, magro. Havia rugas no olhar. Na face, sulcos lavrados por lágrimas de sal. Vincos de dor. Linhas de ilusão acentuadas por marcas de rancor. Lábios imóveis, pálidos de riso, feridos pelos espinhos de outros lábios. Um corpo esguio encurvado de fracasso, equilibrando-se nas pernas bêbadas de incerteza. Mãos vazias de desejo, entupidas de dureza.
De repente, outra vez a estranhesa. O susto. A expressão de espanto. A revelação: - O reflexo no espelho era meu!
Lembranças esvoaçaram na memória. Os olhos nublaram. Uma chuva de lágrimas inundou a face, lavrando sulcos mais profundos. A dor desenhou vincos na face contornados por linhas de ilusão, marcando a face com um bordado de desventura. A chuva que caíra umedeceu os lábios com aspereza. O corpo encurvou-se de sofrimento. As mãos banharam-se de tristeza.
- Meu Deus, envelheci cedo demais...
Será que há alguma maneira de desenvelhecer?