"Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos."
Manoel de Barros
Manoel de Barros
Acordei com a ansiedade daquela menina de outrora que levantava-se cedo à procura do brinquedo deixado a porta do quarto.
Acordei com vontade de ser de novo aquela menina de sonhos adocicados e olhos de Sol.
Acordei com vontade de brincar de faz de conta - faz de conta que ainda sou aquela menina.
Pulei da cama às pressas. Vesti o vestido mais colorido, pintei o rosto com traços tortos e marcantes, boca rosa pitanga, assim como fazia com a maquiagem da minha mãe.
Saimos de mãos dadas - eu e aquela menina, catando vestígios da infância dourada.
Enfeitei a alma com os sonhos adocicados de criança. Gargalhadas. Olhos de Sol. Vestido manchado de tinta. Um céu de giz no chão.
Bordei o meu faz de conta furta-cor, sabor framboesa.
Brinquei de ser astronauta, artista de circo, bailarina, brinquei de ser criança... E descobri que jamais deixamos de ser crianças. A infância brinca de pique-esconde com a vida e todos nós escondemos uma criança na alma.
E no fundo eu sempre serei aquela menina de sonhos adocicados e olhos de Sol.