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domingo, 7 de novembro de 2010

Meus olhos estão com saudade dos teus

"E por falar em saudade onde anda você
Onde andam seus olhos que a gente não vê [...]"

Vinicius de Moraes

Em cada esquina paro em cada olhar a procura do teu e me perco nessa busca sem fim, e me perco na multidão de faces anônimas à memória e me perco numa íris cor da noite, assim como a tua, e mergulho noutro olhar em busca da constelação de estrelas faiscantes que os teus olhos flamejavam e me afogo a procura da tua pupila costurada com o mesmo tecido acetinado da Lua, a procura de cometas viajantes e me empoeirar no rasto de pó cintilante. Desiludo-me. Um olhar parecido com o teu, mas não era o teu, eu soube por que não vi cair a chuva de estrelas cadentes, não me banhei com suas gotículas de luz, não vi a Lua Cheia que a tua pupila estampava, me iluminando. Cometas não riscavam com suas caudas em chamas o céu noturno desse olhar. E em meu olhar não se acendeu um fogaréu com as labaredas do teu. Eram olhos de noite também, mas esses da noite tinham somente o breu.
Carregavas no semblante olhos de uma noite quente de Verão. Os olhos que vi essa noite atravessavam um longo e soturno Inverno, eu diria até que esses olhos eram uma mescla de Outono e Inverno - a nudez do Outono com a solidão do Inverno. Olhos cansados. Os teus estavam em frenesi constante como borboletas coloridas num jardim durante a Primavera. Os olhos que vi essa noite eram galhos desnudos agasalhados por uma aragem fria.
Eu emergi do mergulho na ilusão 'inda a procura dos olhos teus. Abandonada numa esquina qualquer desejando o afago do teu olhar na minha face. Ah, moço onde andas tu? Venhas podar essa saudade que os meus olhos tem dos teus. Venhas semear noite constelada no meu olhar, minhas estrelas só florescem quando regadas pela luz das tuas, e eu fico a ti procurar em outros olhares enquanto cultivo tua imagem na memória.
Não demores, moço. Não deixes que o tempo nuble o meu céu, mas cá dentro me pergunto se aquele era o teu olhar, se o tempo nublou o céu do teu olhar...
Meus olhos serão noite nublada sem os teus, nem sequer uma nesga de luz deles escapará.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Detalhes


"Eu me agarrei às coisas que eu não podia ter imaginado - como o cheiro dele."


Stephenie Meyer

Um véu de neblina veste a noite soturna. Sobre o céu enegrecido desenrola-se um manto de veludo cinza. Um veludo que fere meus olhos como um espinho. O cinza poda a beleza tímida da noite silenciosa. A Lua Nova adorna com singeleza o manto aveludado, deixando escapar uma nesga de luz tremeluzente. A luz bailarina adentra o quarto sorrateiramente pelas frestas da janela. E dança serena... A convite da luz, a brisa gélida vem dançar com meus cabelos, e os pensamentos esvoaçam com a brisa. Uma nuvem cor de café encobre a Lua e a franzina chama de brilho apaga-se. Um sereno escorre do céu tristonho. E a noite compõe solidão dentro de mim.
O coração suspira saudade. O pensamento tagarela com o travesseiro. A saudade embebeda a memória fazendo desmaiar as lembranças tontas. Minhas mãos te procuram entre os lençóis áridos da tua companhia. O corpo grita em silêncio teu nome. Ao meu lado só o vazio de um adeus. E as paredes amarelecidas espiam tua ausência. Ausência que o silêncio dedilha.
No rádio uma voz grave cantarola '[...] Eu me visto de saudades/ Do que já não somos nós...' E eu me fantasio de ontens perdidos, histórias desbotadas. Eu me agarro às recordações minúsculas de nós dois. Detalhes que aos poucos o tempo foi borrando. Minúcias de amor. Detalhes às vezes mesquinhos. Recordações solitárias da companhia da tua memória.
 O teu perfume numa carta esquecido vem abraçar meu olfato. Levita no ar um aroma de lembranças. Inebria o coração, entorpece a alma, alucina a memória. Eu me agarro às recordações amiúdes como o teu cheiro escondido nas entrelinhas da carta. Os detalhes miúdos agigantam-se cá dentro. Detalhes pequeninos que crescem quando fecho os olhos e penso em ti. A memória rega com lembranças a muda de detalhes que ficaram de ti.
Adormeço com teu cheiro acariciando-me, sussurrando ao pé do ouvido o perfume de um tempo bom, aconchegada no que restou de nós dois - detalhes [...] 

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Mais uma carta

"Escrevo-te estas mal traçadas linhas meu amor
Porque veio a saudade visitar meu coração
Espero que desculpes os meus erros por favor
Nas frases desta carta que é uma prova de afeição.
    
Talvez tu não a leias mas quem sabe até darás
Resposta imediata me chamando de 'Meu bem'
Porém o que me importa é confessar-te uma vez mais
Não sei amar na vida mais ninguém."
    
Legião Urbana
    
Escrevo-te esta carta para falar sobre saudade - a minha saudade. Saudade que atracou no meu peito, fazendo-o cais somente de desembarque. Nau que ancorou e nunca mais partiu em busca de outros mares. E começo esta sem formalidade porque saudade é moça sem etiqueta, mal educada, desprendada. Adentra o coração sem pedir licença, dele faz moradia, parte sem despedir-se e quando menos se espera a visita retorna, fala alto, inquieta, malcriada, só borda lembrança, só pinta nostalgia e não sabe varrer passado.
Perdoa-me a letra disforme, os traços tortos e mal desenhados. A mão treme enquanto desliza pelo papel escrevendo sentimentos, sentindo palavras. Deve ser a emoção, saber que tuas mãos vão tocar este papel e que teus olhos vão enxergar essas letras disformes, esses traços tortos e mal desenhados, mas que eu não vou poder sentir o toque aveludado das tuas mãos abrandando minha dor, acolhendo-me com um abraço apaziguador como quando desmoronava no teu colo pedindo abrigo nem vou poder olhar no fundo dos teus olhos e ver o Sol amarelo-ouro que se espreguiçava no horizonte da tua pupila ao ver meu semblante nascendo diante do teu. E o coração segue ditando as palavras para minha mão.
Acendo mais um cigarro. Ao lado uma dose de whisky. O relógio marca 03h57min da madrugada. No rádio uma canção me faz lembrar aquele Verão que passei ao lado teu. E eu cantarolo a nossa canção sem ti, tua voz rouca cantarola somente na memória, e eu sigo a canção - um dueto de um. A lembrança daqueles dias de Sol a pino, noites de céu empoeirado de estrelas, vaga-lumes no olhar, riso faceiro, face corada, samba no coração e borboletas no estômago arde, resplandece, vibra, ofusca os campos da memória. Depois que partiste é Verão apenas nas recordações. Contigo o Verão também partiu. O Sol adormeceu numa nuvem nublada, as estrelas do céu foram varridas, os vaga-lumes do nosso olhar foram apagados por chamas de ira, inundou-se de lágrimas o riso, o corado da face desbotou, o samba no coração desafinou e as borboletas de asas partidas no estômago desmaiaram. Sem ti é só Inverno. Chuva de melancolia que me banha. Solidão que me congela. Saudade nevando incessantemente dentro de mim, cobrindo a memória com um manto frio de lembranças.
O porta-retrato emoldurado de saudade sobre o criado-mudo tagarela tantas recordações. A fotografia amarelecida tem rasuras de tempo, só não se atreve o tempo a rasurar tua lembrança. O instante aprisionado pelas lentes da câmera fotográfica eternizando o momento em detalhes que escaparia as lentes da retina. Eu posso ver o Sol que fazia na tua pupila naquele dia, mas em vão tento sentir o toque aveludado das tuas mãos.
Outra noite insone atravesso, e essa saudade esperta não adormece. A Lua me espia aconchegada no ombro das estrelas. Elas fazem um cafuné na Lua, enquanto a vigília não se encerra. Lua e estrelas recortadas contra um fundo preto azulado. Lua, estrelas e céu preto amanhecendo são a minha companhia nessas noites de solidão e saudade sufocante.
A fumaça do cigarro acinzenta o olhar embaçado de tristeza. Uma dose de whisky para duas doses de saudade, embriago-me com lembranças.
Sinto-me ínfima perto da saudade que cresce cá dentro do peito. Inútil tentar tornar o solo árido, o adubo que o fertiliza é amor. E se podo a saudade, ela cresce mais robusta. Se a arranco pela raiz, o arado da memória prepara o solo para receber mais sementes de saudade. Penso que nem o tempo seja a erva-daninha da saudade. E o jardim de saudade que cultivei agora cuida do seu jardineiro.
Perdoa-me os borrões no papel. O coração transbordou saudade, e os olhos marejados de saudade derramaram-na, escorrendo pela face e pingando no papel. Um pedaço do mar de saudade que guardo no peito vai contigo.
Espero que estejas bem, desejo que teus dias sejam de calmaria, mas não esperes de mim que eu deseje que encontres um novo amor, é eu sei vais dizer que eu tenho que aprender a ser desprendida, ora fazer o que se essa saudade me prendeu a ti? Saudade é nó que nos amarra ao passado. Manda-me uma carta e não se esqueças de perfumá-la com teu cheiro. Durmo abraçada as outras cartas, até o perfume escapar, como se me abraçasse a ti. E mesmo quando o perfume delas escapa, ainda sinto teu cheiro, porque teu cheiro não escapa da memória. Deleita-se a saudade com o teu perfume.
Desculpa se te sou inconveniente arrastando passados mortos, ontens perdidos colecionando cartas do que passou. Tua ausência ainda me dói, e essa é a maneira que encontrei de te fazer presente. Cartas minimizam a distância, a indiferença que ficou entre nós. Cartas trazem um pouco de ti para mim, é como se eu te lesse. Cartas levam um pouco da minha saudade para ti, é como se tu me lesses.
    
Com esmero da tua (e para sempre tua) amada.
    
P.S.: Essa noite decobri que sou uma metáfora de saudade!

quarta-feira, 24 de março de 2010

E lembrança nenhuma o tempo levará

"Não passam as dores, também não passam as alegrias. Tudo o que nos fez feliz ou infeliz serve pra montar o quebra-cabeça da nossa vida, um quebra-cabeça de cem mil peças.
[...] Não há nenhuma peça que não se encaixe. Todas são aproveitáveis. Como são muitas, você pode esquecer de algumas, e a isso chamamos de 'passou'. Não passou. Está lá dentro, meio perdida, mas quando você menos esperar, ela será necessária para você completar o jogo e se enxergar por inteiro."
 
Martha Medeiros
 
A Lua Crescente me espia solitária pelas frestas da janela velando meu sono inquieto. Debruçada na janela do meu quarto me sorri um sorriso delgado, deixando escapar um fio de luz tremeluzente que atravessa as frestas da janela caminhando trôpega no ar até encontrar a cama, deitando-se nela junto ao corpo meu. A Lua aconchega-se nos braços da noite, recostando-se no manto negro que se desenrolou cobrindo o céu com negrume. Céu negro, estrelas dispersas e meia-Lua. Uma xícara de café com gotículas de leite e ao lado uma rosquinha de coco pela metade disposto naquela mesa gigante para alguém deliciar-se. Um sopro adentra pela janela agora entreaberta, fazendo dançar as cortinas, para que o quarto respire a noite lá fora. O sopro sussurra brisa ao pé do ouvido. E eu ouço a canção silenciosa da noite dedilhada em mim. O relógio tiquetaqueando versos de tempo. Eu tento digladiar a insônia vestida com minha armadura de lençol. Uma nuvem cinza encobre a Lua, fazendo-se a noite, levemente prateada, escuridão. E a escuridão pincela abismos nas paredes do meu quarto. A ausência desenha solidão cá dentro. Meus pensamentos tagarelam com o travesseiro. A cama fica apequenada para um corpo que não quer ficar, para um corpo que deseja liberdade. E as paredes do meu quarto me sufocam, o concreto me esmaga. Uma lembrança tua faz cócegas na memória fazendo sorrir no coração uma saudade. Quando pensei que tu há muito adormeceras dentro de mim tu, outra vez, acordas esperto. E eu levanto com o peito gargalhando saudade. O meu antiquário de lembranças abre-se, esvoaçando recordações, num redemoinho de lembranças eu mergulho. E o meu antiquário conserva as lembranças mais antigas, sem nenhum arranhão, nenhuma delas está quebrada, nenhuma delas o tempo empoeirou ou desbotou. Lembranças que o tempo não tocou com aspereza ou esquecimento. E eu submersa nessas lembranças deixo a noite embalar-me em sua musicalidade, sonolenta eu adormeço embrulhada em lembranças tuas. Amanhã é novo dia talvez outras lembranças venham me visitar, e que eu não esqueça que elas não se esquecem de ser lembradas. Lembrança é um passado acontecendo hoje e amanhã e sempre porque lembrança nenhuma o tempo arranca, elas ficam enraizadas na memória e vez em quando florescem no coração. Lembrança nenhuma, mesmo leve, o tempo não leva...
E tu certamente acordarás outra vez dentro de mim. Tu não adormeces.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Solidão de prata

"Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado, juntando
O antes, o agora e o depois
Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho!"
   
Peninha
   
O vento adentra no meu quarto sem pedir licença, pela janela entreaberta, faz dançar com leveza as cortinas, esvoaça os meus cabelos acariciando a nuca com uma brandura que lembra o toque delicado das tuas mãos passeando entre os meus cabelos, afaga o corpo, arrepia a pele, envolvendo-me num aconchego frio. As cortinas se abrem num passo de dança ensaiado, a janela do meu quarto é o palco para a noite se apresentar.
No manto negro que se desenrolou sobre o céu infinito, estrelas saltitam - cintilantes e sorridentes, pontinhos de brilho que se espalham pelo manto negro, luzinhas que se acendem e se apagam, umas piscando para as outras. Uma sinfonia de brilho. Chuva fina de prata serenando pingos de luz. E essas estrelas incendeiam meu olhar nublado. A Lua - a dama da noite, sobe ao céu para fazer companhia às estrelas. Uma Lua Cheia - imponente e amarelada decora a noite. Ela é um girassol nesse jardim de estrelas. Ao redor da Lua amarelada uma aréola branca circunda-a, abraçando-a, uma fusão de amarelo e branco. E os seus fios de luz fazem cócegas no meu olhar triste. 'Dentro dela tem Sol!', eu pensei. Essa Lua-Sol arde em sonhos com o seu amado.
Um vento de saudade sopra no coração, arejando a memória com lembranças de um antigo amor. Ah esse coração que vez em quando faz dançar uma saudade e esvoaça lembranças por mim nunca esquecidas. Reminiscências de um ontem que não passou. Recordações que não envelhecem. O pensamento tagarela histórias que o tempo não desbotou. O silêncio sussurra sua ausência. E eu fico sonhando acordado lembrando o amor que se perdeu. 'Vivendo do que fomos ainda estou' diz a canção que está tocando no rádio agora, a nossa história é feita apenas de restos de passado, eu me prendo a ontens num laço de saudade. Vou rasgar a noite em vigília, espiando o céu à espera de que uma estrela tropece e caia para que eu peça você outra vez aqui...
Essa noite é uma metáfora da minha solidão. Solidão de prata, brilho que não me acende de alegria.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

E eu fiquei sambando lembranças

"Ela desatinou, viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando
E ela inda está sambando
Ela desatinou, viu morrer alegrias, rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando e ela inda está sambando..."
     
Chico Buarque
     
Mais uma vez a lembrança daquele Carnaval faz folia na memória. Minha memória é uma larga avenida colorida por onde desfilam dançantes e frenéticas lembranças ao som da batucada da bateria ritmada desse coração. Lembranças empoeiradas de um Carnaval de cinzas. Eu me visto com a velha fantasia, a fantasia de felicidade que se rasgou ficando em trapos e o tempo desbotou. A fantasia amarelecida de ontem. E eu me enfeito do que já não somos nós. E me maquio com um riso, mas como maquiar estrelas no céu escuro e nublado de um olhar? Como pintar a face pálida com o corado da emoção? Com que pincel se traçam os sonhos? Que cor refaz o que o tempo desfez? E eu me enfeito com uma alegria triste. O confete e a serpentina é uma chuva de tristeza e a purpurina é lágrima que ilumina a face com um brilho ofuscante. O colorido é preto e branco. A canção ficou esquecida nos tamborins de outro Carnaval. O bloco é da saudade.
E eu tento varrer a poeira rebrilhante da memória, mas aquele Carnaval não tem fim cá dentro. E eu fiquei cantando saudade, sambando lembranças...
A fantasia se rasgou, desbotou, o encanto se quebrou, o confete e a purpurina para longe o vento soprou, a purpurina a água lavou, o colorido esmoreceu, a canção nunca mais tocou, mas eu fiquei cantando saudade, sambando lembranças.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Distância

"Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens."

Ferreira Gullar

Em meio a multidão de semblantes anônimos à memória, eu avisto o teu, fiel companheiro da saudade que carrego no peito, velho amigo das lembranças que guardam a memória.
Teu semblante mudou, não é o mesmo do retrato de recordações que enfeita a parede da memória. Teu semblante mudou, mudou de estação. Há um jardim de outono desenrolando-se sobre a tua primavera, há uma nuvem de inverno encobrindo o teu verão.
Teu semblante moreno pálido de emoção emoldura teus olhos nublados de brilho, limpos de estrelas sorridentes, um riso delgado ausente daquela alegria contagiante. Um riso alegremente triste. Atravesso horas a fio, perdida no meio da multidão tentando me encontrar no vazio dos teus olhos, procurando inutilmente o corado que empalideceu, a Lua que estampava o fundo das tuas pupilas, a alegria que deliciava-se nos teus lábios.
Teu semblante mudou. Mas dentro de mim nada mudou. Meus olhos te avistam na multidão e uma alegria inquieta percorre as ruas e becos de mim e no peito faz moradia. O coração acelera, bate forte, dança no compasso de uma escola de samba. No estômago, um balé de borboletas. E a alegria veste-se de saudade. As mãos gelam, as pernas tremulam. E eu atônita observo teu semblante entre tantos outros e todos eles parecem invisíveis aos meus olhos, os carros imóveis, o tempo congela, a vida paralisa naquele instante que se eternizará na memória do coração. A avenida congestiona-se de lembranças de tempo perdido.
E antes que a retina pudesse fotografar um último gesto teu, um segundo de distração e eu perco teu semblante moreno na multidão. Talvez fosse apenas uma lembrança de outros dias, talvez imaginação, talvez realidade, talvez realidade misturada a lembranças e imaginação, não sei...
Estive separada de ti por alguns segundos pela distância de uma avenida. Eu poderia ter cruzado a avenida e mesmo ao seu lado aquela distância continuaria existindo entre nós tão real quanto o Sol que fazia. Sim, eu poderia ter seguido em frente e atropelado aquela distância. Mas voltei. Voltei, virei, dei as costas ao que eu acreditava ser passado, miragem empoeirada de velhas lembranças. Não olhei para trás. Depois compreendi que eu deveria ter seguido em frente, que não se anda para trás quando o destino desejado é o novo, que não se caminha por velhos caminhos quando o que se busca é o horizonte. É, eu deveria ter seguido em frente. Mas voltei.
Se eu tivesse seguido em frente teria encontrado a rua do presente que faz esquina com a rua do futuro, e o teu semblante seria apenas uma imagem anônima de encanto, perdida na memória.
Ainda te espero perdida na multidão em busca daquela distância...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Memória

"O que a memória ama, fica eterno. Te amo com a memória, imperecível."

Adélia Prado

E basta o peito nublar-se com uma saudade tua para serenarem lembranças, borrando a memória com velhas recordações. Eu me banho no sereno de lembranças do que fomos. Passa o tempo e não desbota nem as lembranças mais antigas e quanto mais velhas, mais vivas. A minha memória é um relógio com ponteiros girando no sentido contrário. Passa o vento e não leva nem as lembranças mais leves e as mais pesadas nem os ventos raivosos arrastam. Tuas lembranças estão presas a mim por grampos de eternidade. A minha memória é brisa à beira mar soprando lembranças em minha direção. Passa o esquecimento e nem a sobressaltos de indelicadeza arranca teu nome da memória, e quando penso que te esqueci vem outra lembrança tua dançar na memória. A minha memória esvoaça lembranças dançantes sempre ao som da mesma canção.
Não há outono que desfolhe essas lembranças da memória. Reminiscências de recordações que não desbotam, que não envelhecem. Não há inverno que congele a minha memória. Esquecimento que não cobre com sua neve escura a minha memória.
Como a primavera, a minha memória está sempre florescendo lembranças coloridas. Primavera de cores desbotadas, céu azul caramelado. Como o verão, a minha memória está sempre rebrilhando lembranças de Sol. Verão nublado, Sol envelhecido.
Carrego a memória empoeirada com lembranças faiscantes.
A minha memória é uma alameda de lembranças verdejantes. As minhas lembranças caminham na contra mão do presente. Ruas, vielas, becos congestionados com recordações inquietas. Recordações que não cansam, que não adormecem.
E na minha memória eu e tu ainda somos nós. Guardo engavetada na memória no canto mais bonito as nossas melhores lembranças. Coleciono pedaços de Sol, retalhos de mar, recortes de céu, um punhado de estrelas. Um saco bem cheio de fins de semana a dois, beijos demorados, abraços sob Lua cheia, risos largos, olhares estrelados, toques acetinados, canção cantada ao pé do ouvido. No bolso uma porção de palavras açucaradas, gestos de veludo, promessas rumo à eternidade, planos de alcance ao futuro, sonhos de verão. Um amontoado de lembranças nubladas de tempo. Eu gosto do que não é mais, e o que ainda é só passarei a gostar quando deixar de ser. Vivo debruçada no passado da minha vida.
Eu te eternizei na minha memória. Nossos olhares emoldurados com risos largos enfeitam a parede da memória. Eu e tu sem hífens de distância, sem reticências de saudade, sem ponto de fim, mas de recomeço. Pra sempre, juntos na memória. Porque recordar é dar cor novamente aquilo que passou...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Saudade

"Dentro de cada pessoa
Tem um cantinho escondido
Decorado de saudade
Um lugar pro coração pousar
Um endereço que frequente sem morar
Ali na esquina do sonho com a razão
No centro do peito, no largo da ilusão..."

Marisa Monte

Saudadezinha todos os dias bate à porta do coração, acorda logo cedo, inquieta feito moleque travesso. Entra sem pedir licença, acomoda-se, faz do peito moradia. Parece moça mas já é velha essa saudade que insiste em me fazer companhia.
Nasce com o Sol, decora o coração, enfeita-se toda pra ficar bonita, pinta as paredes da memória com lembranças coloridas. Saudade atravessa o dia voando nos ponteiros do relógio. O coração é um jardim de saudade exalando seu perfume de lembranças no ar.
O Sol esmaece no horizonte no horizonte alaranjado e a saudadezinha cansa não... Do horizonte do coração sopram ventos de saudade arejando a memória com lembranças refrescantes. Rodopios de saudade me levam envolta de lembranças nas voltas da memória. Fico horas à fio girando no meu carrossel de lembranças ao lado da saudade.
O manto negro começa a desenrolar-se sobre nós. Pontinhos de luz sorridentes bordam o céu com bolinhas faiscantes. A Lua tímida ri um riso largo sempre que uma estrela travessa tropeça do céu. Peço pra saudade pegar carona na cauda de algum cometa ou tropeçar com alguma estrela, despencando na imensidão do nada.
Saudade não quer ir embora, quer ficar aqui comigo. E de noite ela faz-se ainda mais bonita. Do coração saudade troca confissões com a memória. A noite me embala, me envolvendo no seu manto negro, posso ouvir a saudade respirando dentro de mim... O trem da saudade corta a madrugada cruzando os trilhos do meu coração.
E no dia seguinte o coração novamente acorda a sobressaltos de saudade, decorando-o com suspiros de saudade... Saudade faz das ruas do coração um Carnaval sem fim.

sábado, 26 de setembro de 2009

Ao tempo

"Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade."

Friedrich Nietzsche

Escrevo-te porque a saudade fez do meu coração moradia. Esvoaçam lembranças dançantes na memória, nublam os olhos, inundando-me com chuvas de saudade e melancolia. Saudade e melancolia cavam buracos no coração e alicerçadas nas lembranças constroem seu abrigo.
Escrevo-te porque encurralam-me essas paredes amareladas de tempo perdido, sufoca-me o perfume estonteante preso em cada lembrança e que envenena docemente. Reminiscências de recordações que repetem-se, que à memória nunca envelhecem, alucinando-me calmamente.
Escrevo-te porque quero que estendas teus braços de compreensão até os meus, envolvendo-me no teu abraço mais demorado.
Peço-te o controle dos ponteiros do teu relógio e que os meus passos possam entrar em sincronia com a sinfonia dos instantes.
Sei, o que peço é muito, mas quereria eu poder controlar os ponteiros do teu relógio para atrasar sempre a chegada do trem da saudade com seus vagões cheios de lembranças e que quando parte deixa trilhos de melancolia. Quereria eu poder sincronizar meus passos com a sinfonia dos instantes para que nenhuma nota se perdesse na fugacidade do momento, para que cada instante carregasse uma vida inteira...
Escrevo-te porque estou tonta de rodopios de lembrança levando-me envolta de saudade nas voltas da memória. A minha memória é um arabesco de lembranças e o meu coração um jardim de saudade regado com melancolia.
Escrevo-te porque cansei do filme antigo que virou minha vida.
Escrevo-te porque tenho medo de perder-me dentro desse labirinto de lembranças, afogar-me nesse mar de saudade e melancolia...
Peço-te tempo um novo tempo, um outro tempo, tempo de primavera. Quereria eu um tempo para recomeçar, para colecionar novas lembranças, lembranças com cheiro de coisa boa, ao invés daquelas já velhas e tão repetidas com cheiro de passado morto, para guardar uma saudade no peito regadas com felicidadezinha, enfeitadas com sorriso de Sol. Quereria eu encerrar esse outono dentro de mim.
Pense no meu pedido com esmero...

P.S.: Escrever-te-ia uma canção se eu conhecesse uma palavra tão árida e também tão acetinada que rimasse com tempo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Lembra

"Onde você estiver, não se esqueça de mim
Com quem você estiver não se esqueça de mim
Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim
Onde você estiver, não se esqueça de mim
Mesmo que exista outro amor que te faça feliz
Se resta, em sua lembrança, um pouco do muito que eu te quis
Onde você estiver, não se esqueça de mim..."

Roberto Carlos

Se acaso uma outra carregar nos olhos todo o azul do céu ou o verde refrescante da relva ou o amarelo mel preso às asas das abelhas, lembra do infindo amor, da calmaria e dos voos de liberdade que abrigavam meus olhos.
Se acaso uma outra tiver na face estampado o mais largo riso de Sol de Verão, lembra do riso tímido que a minha face estampava assim como a Lua minguante que o imenso manto negro estampa, e mesmo delgada encanta os amantes.
Se acaso uma outra tiver preso entre os lábios o picante sabor das aventuras, lembra que eu tinha guardado entre os lábios o terno sabor da eternidade que cada instante carrega.
Se acaso uma outra sussurrar ao pé do ouvido as palavras de veludo que tu sempre quiseste ouvir, lembra da canção que eu cantarolava pra ti, das coisas de amor que eu te dizia em silêncio, do 'Eu te amo' nunca dito, embora feito.
Se acaso uma outra carregar na pele o perfume adocicado das flores, tiver escondido nas curvas do corpo desejos fogosos, lembra do aroma sereno que eu carregava nos ombros, da manhã que escondia minha nuca, do cheiro refrescante da brisa que os meus cabelos esvoaçavam.
Se acaso uma outra tiver a pele coberta com o acetinado das estrelas, lembra que eu encobria com o veludo das rosas os espinhos de cada dia, assim como as roseiras que em meio aos espinhos floresce rosas ímpares.
Se acaso uma outra fizer o teu coração descompassar, o passo desajeitar, a respiração desconsertar, borboletas bailarem no estômago, a face corar-se, os olhos serenarem estrelas, o riso enlarguecer, as mãos tremularem e o corpo arrepiar, apenas lembra de mim...
Guardas no canto mais bonito da tua memória, decorado com a mais bonita saudade, as mais bonitas lembranças nossas. Não deixe que eu morra em ti.
Ah não meu amor, não esqueça de mim...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Uma velha canção

"Num velho disco a vida se desfaz
Em poucos minutos
Pra onde aquele tempo te levou
Também vou
Pode ser numa canção
Pode ser no coração
Eu só quero ter você por perto."
     
Pato Fu
     
No rádio toca uma velha canção
A nossa canção por mim nunca esquecida
A canção toca na vitrola do coração
Uma saudade enternecida

Esvoaçam na memória lembranças tua
Dança comigo um tempo perdido
E nos braços da saudade mergulha a lembrança de data nua
E o coração de ternura fica embebido

Sinto tua mão encostrar na minha
O sussurrar ao pé do ouvido a alma arrepia
No teu olhar serenam estrelinhas
A canção o peito acaricia

Inebrio-me no teu estonteante cheiro amadeirado
Tuas palavras abraçam-se com teus gestos
O riso largo deixa o semblante corado
A canção te traz pra perto

A canção tem fim
Desfaz a lembrança que a saudade refez
E a saudade cantarola dentro de mim
Que só queria te ter outra vez...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Do que ficou na fotografia

"O que vai ficar na fotografia
São os laços invisíveis que havia
As cores, figuras, motivos
O sol passando sobre os amigos
Histórias, bebidas, sorrisos
E afeto em frente ao mar."
     
Leoni
     
Tu me acolhias num abraço forte abrigando as dores de mulher, os medos de menina, tu me acalmavas num gesto de afeto silenciando as minhas incertezas. Eu afagava tuas mãos com o veludo das minhas, um pedido secreto de sempre.
Serenavam estrelas no teu olhar de menino, um riso faceiro das bobeiras de amor enfeitava tua face. O meu olhar salpicado de luz, iluminando o riso tímido, corando a face a emoção do sentimento.
Abraçados sobre a relva recortados contra um céu azul pálido borrado com nuvens de caramelo, nuances lilás, rosa, laranja, vermelho. O Sol debruçado no poente, beijando ao longe o mar sereno, misturando os 'azuis'... Uma linha alaranjada arrematou o horizonte, costurando o fim de tarde. A Lua pequenina acompanhada de uma estrela solitária saltou no céu querendo ser amante do Sol...
O instante eternizado pelas lentes da câmera fotográfica. O momento preso ao porta-retrato. O que ficou pra trás guardado na fotografia. O sentimento emoldurado em velhas lembranças.
Cortando nossos risos, a marca da ira. Avança o tempo pelos cantos da foto, fazendo a relva um tapete de outono, manchando a foto com rugas de tempo perdido.
O abraço, o gesto, o afago congelados na foto, dançantes na memória, imóveis no presente. O olhar brilha morto, riso sem alegria, vida paralisada. Chuva fina de lágrimas que escorre pela face pingando tristeza na foto.
O céu desbotou. O Sol envelheceu. O horizonte alaranjado empalideceu. A Lua pequenina jamais foi cheia. A estrela continuou solitária.
Desgasta o tempo a fotografia. Desfaz o sentimento. Descose eu de tu.
E o que ficou na fotografia foi a felicidade que queria ser eterna e hoje é só lembrança solta que brinca com a saudade...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Distantes de nós

"Somos somente a fotografia.
Dois navegantes perdidos no cais
Distantes demais."
         
Lenine
     
Somos um presente que ficou perdido no ontem, um futuro sem amanhã. Somos um amontoado de velhas recordações, lembranças amarelecidas engavetadas na memória.
Somos a felicidade de um instante presa a um porta-retrato, eternidade breve emoldurada com os traços da saudade. Somos tudo o que passou, desconcertados pelo tempo.
Somos um começo sem fim, um conto sem ponto, sentimentos que ainda dançam no coração ao som da valsa do fim. Somos o silêncio da nossa indiferença, a distância entre a mágoa e o perdão.
Somos promessas não cumpridas, planos desfeitos, sonhos interrompidos, palavras sufocadas, paixão reprimida. Somos a canção esquecida num disco empoeirado, a rosa seca guardada entre as folhas de um livro aprisionando o aroma do momento, as cartas que abrigam o veludo das tuas palavras nunca mais ditas, um passado próximo, saudade inebriante.
Somos a pausa do instante, a história que se repete com os mesmos movimentos. Somos olhares, abraços, toque, afagos, sussurros, gargalhadas, beijos congelados pelas lentes imutáveis da memória.
Somos o amor ferido pelo tempo, excesso de ausência, vazio de presença. Somos desencontro, distantes de nós, perdidos de nós...
Há um hífen entre nós.

sábado, 4 de abril de 2009

Um carnaval pra toda vida

"Mas o mais triste é essa tristeza toda colorida dos carnavais."
         
Mario Quintana
       
A luz tonta do Sol seguia os passos fervorosos da multidão. Nuvens de algodão doce estampavam o céu azul-felicidade. Uma nuvenzinha e outra sorria um sorriso tímido. O horizonte parecia enfeitar-se com lantejoulas multicoloridas - Rosa, lilás, amarelo, laranja... O vento soprava ares de alegria contagiante, colorindo a face com purpurina. O dourado do Sol misturava-se ao prateado da Lua num fim de tarde. E uma estrela bêbada sempre tombava do céu entre nós.
O colorido do som fazendo cócegas ao pé do ouvido. A musicalidade da cor fazendo graça aos olhos.
O passo no compasso da folia. Sambavam borboletas no estômago. O coração acompanhava o tum-tum-tum da batucada. As mãos suavam ansiosas a espera da companhia das tuas. Os olhos salpicavam-se de luz ao ver os teus. Um riso faceiro não cabia na face. Num beijo tua presença presa entre meus lábios. Num abraço a felicidade do instante agarrada por nós.
Caminhávamos de mãos dadas com a eternidade, numa promessa de sempre vestimos a fantasia de que aquele carnaval seria eterno, pintamos nossos planos com alegria e afeto, penduramos guizos no coração.
E nossa certeza foi tocada pelo áspero da desilusão. O samba desafinou, a batucada parou, a fantasia desbotou, o amor desfez-se com o fim daquele carnaval.
A promessa bailou no ar, espatifando-se no chão, o sempre durou o breve tempo de um instante, nossos planos borrados pelo tempo.
O amor colorido de cinza. E aquele carnaval invade outros carnavais... Rebrilham lembranças colorindo de saudade a folia que faz-se triste. Mas se tu voltas é fevereiro todo o ano...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A mais bonita

"E tanto faz... de tudo o que ficou,
Guardo um retrato teu,
e a saudade mais bonita."

             
Legião Urbana
         
Entre a rima da canção perdida num disco riscado e o definhar de 'meias' verdades, ficou a lembrança das tuas palavras fazendo graça ao pé do ouvido.
Entre o nublado de um adeus e uma tarde chuvosa de incertezas, ficou também o pôr-do-Sol preso ao porta-retrato emoldurado com teu riso.
Entre teu cheiro que das minhas roupas foge e o perfume silvestre do rancor, ficou o aroma suave da brisa daqueles dias de Sol, dançante na memória.
Entre o sabor incerto de um quase e o amargo da desilusão, ficou um pouco de você escondido entre meus lábios.
Entre o espinho da dor e a ferida de tempo, ficou o afago manso feito na nuca, pra enfeitiçar o coração, junto aquela alegria boba à flor da pele.
Guardo num canto da memória, bem enfeitado, o melhor de nós.
Guardo embrulhado num papel de lembranças envelhecidas um punhado da mais bonita saudade, que é pra num fim de noite qualquer desembrulhar tudinho e me vestir com a mais bonita saudade!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Volta tempo

"A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar."
               
Rubem Alves
           
O céu era um manto azulado bordado com estrelas cintilantes. Algumas desprendiam-se do céu e caiam bem na ponta do nariz. Peguei as estrelas na palma da mão e a cada uma fiz um pedido e guardei no bolso, apertadinhas.
A Lua estava enorme, imponente, uma beleza ímpar. Era a atração principal do espetáculo celestial. A Lua parecia uma maestrina regendo uma orquestra de brilho.
E do meu lado apenas minha velha companheira - a saudade.
Enquanto o sono não me embalava em seus braços, contava a Lua do meu amor por aquele moço, das lembranças de um pretérito-mais-que-perfeito, da saudade que não cabia mais no peito e escorria num canto do olho. Contava de quão bom era aquele tempo. Tempo de sorrisos largos, brilho no olho, mãos dadas... beijos açucarados...
A saudade daquele tempo deixava o peito pequeno e a noite longa demais.
Outra estrela cruzou o céu, e minha alma sussurrou 'Volta tempo, volta tempo, volta tempo'.
Fechei os olhos e fiquei a noite inteira esperando o tempo voltar...

sábado, 16 de agosto de 2008

O tormento de não saber

"Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche."
    
Martha Medeiros
    
Saudade é não saber mais sobre o outro. Não saber se ele está bem, se ainda pensa em você. Não saber se sente saudade, se teve vontade de voltar. Não saber se está triste, se está indeferente. Não saber se está com outro alguém, se ainda gosta da gente.
Saudade é não saber mais sobre o outro. Não saber se ele lembra da gente quando ouve 'a nossa canção', se lembra do cheiro, do toque, do abraço, do beijo. Não saber se ele esqueceu totalmente, se ainda guarda alguma lembrança. Não saber se vai passar o fim de semana acompanhado, se vai ficar em casa num sábado à noite.
Saudade é não saber mais nada sobre o outro, e ainda assim doer por imaginar que o outro pode está bem sem a gente. Saudade é o tormento de não saber.
Saudade é não saber o que fazer com a presença da ausência.