"Parece-me agora, tanto tempo depois, que as partidas-dolorosas, as amargas separações, as perdas-irreparáveis costumam lavrar assim o rosto dos que ficam."
Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu
Um remendo no peito. Um meio riso nos lábios. Simples assim se não houvesse feridas que não se fecham, marcas que não se atenuam, decepções jamais esquecidas, dores que não se curam.
A dor traça em nós caminhos tortuosos. Linhas de ilusão. Rugas de tempo perdido.
Levo nos olhos feridas de uma longa ausência. A face está marcada com desventura. No canto esquerdo um vinco profundo esconde tanta amargura, no canto direito um vinco cheio de vazio. No peito, guardo um coração miúdo, e quanto mais miúdo, mais pesado, cravado de esperas inúteis, partidas dolorosas, perdas irreparáveis, desilusões, amargas decepções.
E essas dores, ah essas dores não se curam, nem se amenizam, são espinhos na alma.
Essas dores roubam o melhor de nós - aquele salpico de luz no olhar, o riso largo, os traços de sonho na face, o coração leve, a certeza das mãos, o desejo dos passos.
Essas dores nos desnudam de nós. E essas dores sempre doem...