Mostrando postagens com marcador Dor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dor. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de janeiro de 2009

Dessas dores que não se curam

"Parece-me agora, tanto tempo depois, que as partidas-dolorosas, as amargas separações, as perdas-irreparáveis costumam lavrar assim o rosto dos que ficam."
           
Caio Fernando Abreu
     
Um remendo no peito. Um meio riso nos lábios. Simples assim se não houvesse feridas que não se fecham, marcas que não se atenuam, decepções jamais esquecidas, dores que não se curam.
A dor traça em nós caminhos tortuosos. Linhas de ilusão. Rugas de tempo perdido.
Levo nos olhos feridas de uma longa ausência. A face está marcada com desventura. No canto esquerdo um vinco profundo esconde tanta amargura, no canto direito um vinco cheio de vazio. No peito, guardo um coração miúdo, e quanto mais miúdo, mais pesado, cravado de esperas inúteis, partidas dolorosas, perdas irreparáveis, desilusões, amargas decepções.
E essas dores, ah essas dores não se curam, nem se amenizam, são espinhos na alma.
Essas dores roubam o melhor de nós - aquele salpico de luz no olhar, o riso largo, os traços de sonho na face, o coração leve, a certeza das mãos, o desejo dos passos.
Essas dores nos desnudam de nós. E essas dores sempre doem...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

De um banco de jardim

"Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão...
Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão..."

             
Cecília Meireles
       
A última folha acabara de desprender-se do galho seco. Caíra seca no chão, assim como as outras folhas que ali já estavam desmaiadas. Caíra seca de cor, seca de vida. Desnuda.
A paisagem vista de um banco de jardim era composta por árvores mudas e seus galhos secos, tortos, imóveis.
O chão era um tapete desbotado bordado com folhas ouro-envelhecido. Nos canteiros apenas algumas flores murchas, franzidas de cinza. A beleza das suas pétalas esmagadas pela melancolia do outono.
O céu era um manto azul-amarelado que desdobrava-se sobre a vista - cansado, sonolento. Um céu sem nuvens, sem alegria.
Uma brisa gélida envolvia-me o corpo, acariciando-me os cabelos.
O único raio de Sol que despertara naquela manhã de outono beijava-me a face lentamente, despedindo-se aos poucos...
A paisagem sem cores, sem sons. Imóvel, pálida de vida. As folhas secas, desmaiadas no chão. As flores cortam-se de dor. As árvores torcem-se, padecem. O céu amarelado. O Sol, frio. E eu vou esperar, sentada nesse banco de jardim, que o outono seque também essa dor que carrego.
E que essa dor caia seca, murcha...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Com vocês, a dor

"Dor não tem nada haver com amargura. Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais, é pra ensinar a gente a viver."
               

Adélia Prado
       
A dor é uma senhora rude de cabelos brancos, olhos cansados e face enrugada. Casada com o sofrimento é mãe de três filhos: O impulsivo aprendizado, a indisciplinada amargura e o sereno amadurecimento.
Quando somos tocados pela aspereza da dor aprendemos uma determinada lição, porém também somos envenenados pela amargura da decepção e assim ficamos parecidos com a dor - rudes. Nossos sonhos envelhecem, nossa esperança cansa, criamos rugas na alma.
Então o amadurecimento começa agir serenamente dentro de nós, tornando a dor de hoje na sabedoria de amanhã.
Engane-se aquele que pensa que dor é o ácido da vida, corroendo as pessoas. Engana-se aquele que pensa que dor é apenas amargura, dor também é sabedoria para aqueles que amadurecem sem apodrecerem.
Pelo avesso, a dor desmonta o semblante rude e apresenta-se com traços mais delicados, cabelos esvoaçantes, olhos cheios de vida, renovada.
Se pra vida somos eternos aprendizes, a dor é nossa grande mestra!