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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Desacredito

"Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te."

Friedrich Nietzsche

Olhar teus olhos negros e não enxergar mais uma constelação de estrelas sorridentes, enxergar apenas um negrume acinzentado como o manto que envolve as noites frias de Lua minguante.
Os meus olhos vão está impedidos de enxergar os teus nublados de indiferença.
Olhar teu semblante moreno e não enxergar mais tua face corar-se com vermelho escarlate, enxergar apenas a palidez da emoção estampada na tua face como o Sol que estampa-se no céu em dias de chuva fina.
Os meus olhos vão está impedidos de enxergar o teu semblante cegos de rancor.
Olhar teu riso, outrora faceiro transbordando alegria, e não enxergar mais teus lábios macios emoldurando um riso comprido de moleque travesso, enxergar apenas um riso calculado e medido com a frieza de uma tarde de inverno.
Os meus olhos vão está impedidos de enxergar o teu riso inundados de lágrimas.
Sentir tua mão me tocar sem o corpo arrepiar, sentir tua mão deslizar sem a pele aveludar, sentir tua mão arranhar as linhas do meu corpo, ferir os contornos do meu corpo como a mão feroz que a flor despetala.
As minhas mãos vão está marcadas com as tuas ausências.
Ouvir tuas palavras dançando ao pé do ouvido ao som de uma canção desafinada e em seguida desmaiarem tontas de rodar, ouvir tuas palavras remexendo-se entre nós desajeitadas e em seguida o vento levarem-as pra muito longe, onde perdemos-as e não conseguimos mais alcançá-las...
Os meus ouvidos vão está feridos com as tuas mentiras.
Desacreditar em tudo que vens de ti - olhares, gestos, palavras. Essa é a lei nas ruas do meu coração. Até mesmo tuas mentiras mais adocicadas amargam as minhas verdades inventadas.
Desconstróis as minhas loucas fantasias, dilaceras meus sonhos imaturos... Mas não me magoa as tuas falsas verdades, me magoa não mais acreditar em ti, na realidade imaginária que pintavas pra mim, o colorido cedeu lugar ao preto e branco.
Não mais olhar pra ti e enxergar um céu azul-felicidade bordado com nuvens de sonho sabor algodão doce, arrematado com uma linha alaranjada onde o Sol adormece e eu também adormecia nas tuas mentiras mais loucas...

quarta-feira, 1 de julho de 2009

As mentiras que eu quero ouvir

"Mente ao meu coração
Que cansado de sofrer
Só deseja adormecer
Na palma da tua mão
Conta ao meu coração
Estória das crianças
Para que ele reviva
As velhas esperanças
Mente ao meu coração
Mentiras cor-de-rosa..."
         

Maria Rita
         
Mente pra mim contando as mentiras mais adocicadas, fantasias cor-de-rosa, sonhos de Sol. Diz falsas verdades, mentiras sinceras, invente histórias com pedaços de céu azul-felicidade. Fala qualquer coisa que me faça acreditar em nós outra vez, pinte com verde o amor que se desfez.
         Mente pra mim... Diz que a saudade enfeita teu coração, que rebrilham lembranças minhas na tua memória. Fala que ainda danço nos teus pensamentos, que suspira pausadamente com os olhos marejados quando nos teus pensamentos danço.
Mente pra mim... Diz que esvoaçam recordações minhas na tua vida, que guarda um retrato meu, os versos que te fiz, as cartas que te escrevi e no lado esquerdo do peito um amor que o tempo não feriu. Fala que embriaga-se no meu cheiro que nas tuas roupas ficou, que o meu olhar no teu ficou aprisionado, que o gosto do meu beijo entre os teus lábios ficou grudado, que as lentes da memória fotografaram cada instante para relembrar sempre que a saudade bater à porta do coração sufocando o peito com sua dolorosa delicadeza.
Mente pra mim... Diz que nos fins de tarde deseja minhas mãos para fazer companhia as tuas, que nas noites de chuva deseja o calor do meu corpo pra te aquecer, que quando a brisa acaricia tua nuca na solidão do momento lembra o meu afago que te embalava de ternura. Fala que quando o silêncio atormenta a quietude canta alto a nossa canção, e quando a memória trai a letra da canção vem a lembrança da minha voz cantando ao pé do teu ouvido a nossa canção, que quando uma lágrima insiste em serenar no teu rosto lembra meu riso faceiro.
Mente pra mim... Diz que a minha ausência aos poucos te consome, que todos os dias chove dentro de ti. Fala que aquele adeus foi apenas uma vírgula e não um ponto, que o hiato no tempo não esmagou teu amor por mim.
Mente pra mim... Diz tudo o que eu preciso ouvir. Fala qualquer coisa [...] Ao menos as tuas mentiras eu quero ouvir...