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sexta-feira, 10 de julho de 2009

Ausência

"Em minha mente insone
Só teu nome ecoa
Só não soa o telefone
E a tua ausência
Se faz mais presente..."

         
Maria Bethânia
     
Porta entre-aberta à espera. Telefone mudo da tua voz, tocando apenas silêncios. Cartas que não chegam, e as velhas amarelecem na gaveta. A canção que nunca mais tocou, esquecida num disco empoeirado. Flores murchas de passado. O soneto que ficou pelo meio, verso sem rima. A resposta que nunca veio. O adeus encerrando o verão cedo demais, antecipando o outono dentro de mim. A ausência preenchendo o vazio que você deixou.
A ausência dos teus olhos. Os salpicos de luz que se apagaram. As estrelas que solitárias das tuas no meu olhar morreram. A cegueira das palavras que eu enxergava no teu olhar.
A ausência de riso. O riso que escapando do teu coração sobressaltava dos lábios, arrancando sempre um sorriso meu, desenhando a linha do poente na minha face (...) Ria o momento. Para as bobeiras de um domingo de Sol, um riso faceiro. Para a serenidade de um fim de tarde, um riso manso. Para as confissões à meia-luz, um riso tímido. Para um 'até amanhã, amor', um riso triste de despedida breve. Para o encontro, um riso largo. A mudez da alegria que cantarolava teu riso.
A ausência de cor. O corado que pintava a emoção nas tuas bochechas. Tua face cobria-se de felicidade, vestindo-se da fantasia de que poderia eternizar o momento, aprisionando a felicidade no avermelhado da emoção. A palidez da cor. A palidez do sentimento. Amor desbotado.
A ausência da voz. Palavras sopradas ao vento, partidas no adeus, levadas para um tempo perdido. Palavras que não dançam mais ao pé do ouvido. Palavras nunca mais ditas, esquecidas. Palavras que jamais foram ditas, sufocadas na garganta. Palavras que aveludavam o coração, hoje ferem por serem apenas palavras amontoadas na memória. Só o silêncio entre nós. O silêncio que ensurdece.
A ausência de planos e promessas. Planos desfeitos pelo fim do sentimento que o tempo não refaz. Promessas desmaiadas no tempo. Planos esmagados pelo novo sentimento que o tempo não desfaz. Promessas que tropeçaram na tentativa de alcançar a eternidade. Planos e promessas que escaparam no vazio da tua ausência. A esperança cinza.
A ausência de gestos. A calmaria num abraço que abrandava as dores, hoje essa calmaria é agonizante. É a distância entre nossos braços. É teu abraço entregue a outros braços. O afago na nuca que silenciava o agito dos meus pensamentos, hoje o afago vem da brisa fria que sopra a noite solitária. O carinho esquecido... O toque sereno que cicatrizava as feridas, hoje o toque é lembrança escondida no canto mais bonito da memória, toque que fere por ser apenas lembrança solta num dia qualquer que a tua ausência se faz presente... Gestos paralisados, imóveis (...)
Só a tua ausência ficou.   

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O excesso da falta

"Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis..."

  
Chico Buarque
  
De nós sobrou tanta falta num vazio cheio de incertezas.
Sobrou daquele pretérito mais-que-perfeito um presente em 'pause', um futuro do pretérito.
Sobrou o gosto amargo do desgosto. Sobrou o áspero da indiferença. Sobrou a história sem ponto-final.
Sobrou das mãos unidas o afastamento.
Sobrou o desespero de ver tudo mudado. Sobrou uma canção que nunca mais tocou. Sobrou o delírio de ver o tempo consertar o que não tem mais conserto.
Sobrou daquele sorriso largo o choro inconsolado.
Sobrou o retrato em preto e branco. Sobrou a carta perdida no tempo, engavetada no passado. Sobrou a promessa que não se cumpriu.
Sobrou do advérbio de intensidade um advérbio de dúvida.
Sobrou a saudade do que não foi vivido, a lembrança do que não existiu. Sobrou o amor sufocado, os momentos reprimidos. Sobrou um hiato entre nós.
De nós sobrou muito pouco ou quase nada.