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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Lembra

"Mas você lembra!
Você vai lembrar de mim
Que o nosso amor valeu a pena
Lembra é o nosso final feliz
Você vai lembrar...
Vai lembrar... Sim...
Você vai lembrar de mim."

Nenhum de Nós

Nuvens cor de café e canela dispersavam-se ao longo do manto azul pálido que cobria o céu lúgubre. As nuvens enegreciam o céu outrora borrifado com nuvens de açúcar confeitando a tarde de Junho. O céu que eu havia desenhado com giz e lápis de cera fora rabiscado com linhas espessas de carvão e grafite. O Sol escondera-se por baixo de uma nuvem acinzentada fazendo-a um cobertor de lã. Adormecera tímido nela. O horizonte alaranjado que incendiava o Outono dos meus olhos desbotou. Roubara um punhado do Outono que eu carregava cá dentro. O alaranjado foi sendo desfolhado fazendo florescer chocolate amargo. O horizonte era um jardim de chocolate que derretia deliciosamente escorrendo pelo céu. O vento choramingava ao pé do ouvido. As folhas caídas cochichavam com a aspereza do chão. A aragem gélida fazia um cafuné na nuca ao dançar com os cabelos, arrepiando a pele envolvendo-me com um abraço. Dançava a aragem também com os galhos desnudos das árvores. O aroma do ar beijou-me o olfato. O cheiro suave e inebriante que se dependurou no ar anunciava chuva.
Ao cheiro doce de chuva mesclou-se o teu cheiro entorpecedor. Embriaga a memória entontecendo-a com lembranças. Desmaiando no coração uma saudade viciada em ti. E antes que eu fechasse os olhos para te encontrar e saciar o vício da minha saudade, te encontrei sem precisar fechá-los. Eu te avistei distante de mim. E mesmo distante eu pude ler-te. Parecias alheio a tarde que se desenrolava sobre os teus ombros. Andavas apressado, porém com passos despreocupados. A incerteza esmagava teus pés. Mãos nos bolsos, cabisbaixo, encurvado. Encurvado como alguém que guarda nas gavetas do peito muitas dores, inclinando-se para frente por causa do peso. Um olhar nublado. E o semblante marcado com a presença de uma ausência. Os lábios cerrados encobriam o riso largo de menino bobo.
Coube ao acaso compor que o teu caminho cruzasse com o meu. Coube a eu esperar... Esperar que na interseção dos nossos caminhos restasse ao menos um pouco do que fomos nós. Esperar que ao esbarrar de um olhar, nossos olhos entretecessem uma ponte de estrelas e nossos braços costurassem um abraço apaziguador de tempestades e nossos lábios arrematassem o encontro com um beijo infindo. Esperar que nossos passos caminhassem no mesmo compasso. Esperar que a tua mão deixasse ser acompanhada pela minha. Esperar que o meu semblante corasse o teu outra vez. Esperar que o teu coração fizesse um samba e que eu fosse a rima da canção. E eu esperei. Mas não viste que eu estava à espera de ti... À espera do que fomos nós.
Deixei que seguisses o caminho. E o coração ingênuo sussurrou que a memória do teu coração ainda guarda lembranças minhas. A tarde desfez-se dedilhando uma chuva serena fora e dentro a tarde escreveu uma tempestade furiosa. E o coração insiste... Insiste que tu ainda lembras. Lembras de mim, de nós, do nosso amor, da promessa com o sempre, do plano com a felicidade.
Essa tarde foi uma prosopopéia da minha tristeza.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Detalhes


"Eu me agarrei às coisas que eu não podia ter imaginado - como o cheiro dele."


Stephenie Meyer

Um véu de neblina veste a noite soturna. Sobre o céu enegrecido desenrola-se um manto de veludo cinza. Um veludo que fere meus olhos como um espinho. O cinza poda a beleza tímida da noite silenciosa. A Lua Nova adorna com singeleza o manto aveludado, deixando escapar uma nesga de luz tremeluzente. A luz bailarina adentra o quarto sorrateiramente pelas frestas da janela. E dança serena... A convite da luz, a brisa gélida vem dançar com meus cabelos, e os pensamentos esvoaçam com a brisa. Uma nuvem cor de café encobre a Lua e a franzina chama de brilho apaga-se. Um sereno escorre do céu tristonho. E a noite compõe solidão dentro de mim.
O coração suspira saudade. O pensamento tagarela com o travesseiro. A saudade embebeda a memória fazendo desmaiar as lembranças tontas. Minhas mãos te procuram entre os lençóis áridos da tua companhia. O corpo grita em silêncio teu nome. Ao meu lado só o vazio de um adeus. E as paredes amarelecidas espiam tua ausência. Ausência que o silêncio dedilha.
No rádio uma voz grave cantarola '[...] Eu me visto de saudades/ Do que já não somos nós...' E eu me fantasio de ontens perdidos, histórias desbotadas. Eu me agarro às recordações minúsculas de nós dois. Detalhes que aos poucos o tempo foi borrando. Minúcias de amor. Detalhes às vezes mesquinhos. Recordações solitárias da companhia da tua memória.
 O teu perfume numa carta esquecido vem abraçar meu olfato. Levita no ar um aroma de lembranças. Inebria o coração, entorpece a alma, alucina a memória. Eu me agarro às recordações amiúdes como o teu cheiro escondido nas entrelinhas da carta. Os detalhes miúdos agigantam-se cá dentro. Detalhes pequeninos que crescem quando fecho os olhos e penso em ti. A memória rega com lembranças a muda de detalhes que ficaram de ti.
Adormeço com teu cheiro acariciando-me, sussurrando ao pé do ouvido o perfume de um tempo bom, aconchegada no que restou de nós dois - detalhes [...] 

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A ele, o instante maiúsculo

"Na convivência, o tempo não importa. Se for um minuto, uma hora, uma vida. O que importa, é o que ficou deste minuto, desta hora... Desta vida..."

Mario Quintana

Tanto tempo faz desde a última vez que nos vimos, e para dizer a verdade nem sei bem quanto tempo faz. Quanto tempo faz? Sei lá, se o que ficou faz da minha memória um filme sem fim. O que ficou da última vez é infindo. Eu não esqueço a última vez desde a última vez. E a última vez é um gerúndio, a última vez está sendo na minha memória congestionada de ti.
Remendei na memória cada retalho daquele último momento. A eternidade costurada com fiapos de instantes. Um mar de pequenos infinitos ponteados com barquinhos de segundos velejando à deriva do tempo, a linha de minutos arrematando ondas de horas.
Cultivei na memória a muda do agora que hoje é ontem. Semeei lembranças num solo adubado com amor, o arado é essa saudade que trago no peito, jardim de passados florescendo ontens. Uma de Primavera de recordações colorindo o fugaz com sempre.
Aquela noite nunca amanheceu na minha memória.
Uma noite tecida com fios de linho preto-azulado, bordada com estrelas faiscantes fazendo serenar fagulhas de luz incendiando o poente, outrora incandescente incendiado pelo Sol que adormecia, adornada com uma Lua Cheia amarelo-alaranjada, desenrolando o manto negro sobre o céu taciturno. Manto que nos agasalhava. O céu parecia ter sido salpicado com gotículas de leite, algumas escorriam desmaiando quietas no horizonte, embora 'inda em chamas, pingando faíscas.
Sob os fogos de artifício da noite, tocávamos sem saber a eternidade que jamais nos escaparia. Eternidade engaiolada na memória.
A Lua opulenta nos espiava atônita e os seus tênues raios de luz tremeluzentes dançavam no nosso semblante corado. A brisa agitava delicadamente nossos cabelos. As árvores valsavam tímidas. Eu te tive moço, entre os lábios, tu me tinhas pequenina, entre as mãos, hoje te tenho eterno somente na memória do meu coração, e nem sei se ao menos uma lembrança amiúde minha tu guardas. No teu ombro eu repousei o cansaço que os meus ombros carregavam. No teu abraço eu me abriguei, e as tuas mãos com um afago feito na nuca silenciaram os pensamentos tagarelas. Nos teus olhos de jabuticaba um Verão ardia derretendo os Invernos que nevavam nos meus olhos. A tua voz marejada de ternura sussurrava palavras de açúcar ao pé do ouvido.
Vez em quando surpreendíamos uma estrela cintilante despencando do céu, seguramos uma delas nas mãos, estava chamuscada, ainda quente, fechamos os olhos, apertamos a estrela indefesa e miúda contra o peito e pedimos o velho pedido: A eternidade ao nosso alcance. A traça do tempo corroeu nosso pedido. Pouco importa se o tempo não foi cúmplice daquele pedido... A eternidade está na memória do coração.
Lá fora amanhece, o Sol espreguiça-se, seus raios de luz fazem cócegas no meu olhar, eu respiro o azul-turquesa do céu borrifado com nuvens de algodão, mas na memória ainda é noite. A mesma noite tecida com fios de linho preto-azulado, bordada com estrelas faiscantes e adornada com uma Lua Cheia amarelo-alaranjada. Aquela noite de pequenos infinitos guardados nos bolsos. A noite que o tempo tornou-se minúsculo perto do que ficou. E o instante maiúsculo na memória.
Para sempre será aquela noite na memória, só lamento também ser noite no teu coração de menino velho.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A noite infinita

"Não importa quanto vai durar - é infinito agora."

Caio Fernando Abreu

Recostados num banco de carvalho à companhia do jardim taciturno que nos fitava atônito, enquanto as flores dormiam embebidas no orvalho noturno. Era um jardim estrelado de flores. Flores da cor da pele da Primavera. Pétalas de perfume aromatizando a brisa macia. Um ar bucólico abraçava docemente a nossa doçura. Acolhidos pela noite sentinela, velando com astúcia o romantismo. Cobertos por um manto costurado com azul céreo, ponteado com estrelas rutilantes e bordado com uma Lua minguada. O céu era um imenso telhado que nos abrigava sereno da garoa do tempo. As estrelas acendiam-se para esmigalhar a escuridão. Era um céu florido de estrelas. Estrelas que pareciam focos de incêndio espalhados pelo céu, inflamando o breu. Um filete de luz tremeluzente riscava-nos face com passos de dança melindrosos. Um copo de leite parece que fora derramado no horizonte, escorrendo pelo céu a brancura luzente das estrelas.
O corado do teu semblante abobalhava o jardim soturno, um Verão ardia no teu semblante. Tuas mãos afagavam a nuca aveludando o cabelo, teu toque era feito do cetim das flores. E eu me inebriava no teu perfume amadeirado. No teu abraço eu desmoronava, erguendo-se em mim a paz. Tu refugiavas-se no meu coração e um manto costurado com amor, ponteado com lealdade e bordado com cumplicidade te cobria. Palavras de açúcar dançavam ao pé do ouvido. Eu te tinha entre os lábios, enquanto o relógio derramava horas, escorrendo o instante. A Lua flertava com o Sol amarelo-ouro do teu olhar. As estrelas enamoraram-se com a constelação que iluminava o meu olhar. Uma estrela desajeitada tropeçou do céu, caindo no horizonte eu fechei os olhos e sussurrei 'que seja eterno', nos entreolhamos e num dueto uníssono cantarolamos 'eu sei que é pra sempre enquanto durar... ', e aquela noite foi infinita no instante... E continuou sendo infinita mesmo quando amanheceu. Embrulhados numa breve eternidade, envoltos na infinitude de segundos.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Regresso

"Meus pés cansados de lutar
Meus pés cansados de fugir
Os mesmos pés cansados voltam pra você
Pra você..."
    
Sandy
    
Estou voltando uma vez mais. Voltando para abrigar-me no teu abraço. A estrada se alonga sem ti ao lado. O solo é arenoso. Os passos são trôpegos. O horizonte turva-se de poeira. A margem da estrada está deserta de flores. Por qualquer atalho que eu siga, meus pés têm a companhia das pedras. O destino é incerto. O Sol arde, marcando a face, secando os lábios, só não seca o Sol a flor de saudade que cultivo no peito. A brisa não refresca, agredindo a pele, arranhando os olhos, só não arranha a brisa as lembranças que esvoaçam na memória. Os pássaros emudeceram e o balé de borboletas paralisou. A Primavera que florescia desbotou, desenrolando a nudez do Outono. Uma voz desafinada e soturna cantarola a nossa canção. Nos ombros debruça-se o cansaço. O céu costura um tom azul pálido sem pontear nuvens de marshmallow. Estou voltando uma vez mais. Voltando para abrigar-me no teu abraço. A estrada se alonga sem ti ao lado. Inútil tentar seguir viagem. Inútil tentar caminhar. Inútil tentar não olhar para trás. Inútil tentar lutar. Inútil tentar fugir se fugindo assim eu me perco de mim. Os pés cansados da tua ausência voltaram pedindo a companhia dos teus pés para encurtar as distâncias. Vamos preencher o ano-luz que há entre nós com um beijo do tamanho da infinito. Vamos caminhar lado a lado, de mãos dadas com a felicidade... Deixa eu repousar meus pés no teu colo. Deixa eu desmoronar meu ombro no teu.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Tu és Verão

"Lembrar de você me aquece: É feito um pé de Sol que eu cultivo na memória."
    
Ana Jácomo
    
Um manto gélido e branco desenrola-se sobre a relva resfriada, cobrindo-a com um cobertor ausente de calor. O manto desdobra sobre a relva sonolenta a cor pálida do Inverno, estendendo uma calmaria inebriante. O Outono outrora costurou um vasto tapete avermelhado e amarelo envelhecido com as folhas que despencavam pausadamente das árvores, arrematando a costura com as flores murchas de vida. O Inverno agora tece um xale de lã com os fios da geada, adornando com brancura os ombros da tarde. A neve cai vagarosa e delicadamente, um passo de balé clássico ensaiado por horas a fio com esmero. A neve agasalha as árvores desnudas. Os galhos secos e imóveis acompanham atônitos os passos de balé. O Inverno veste a tarde taciturna, envolvendo-a em solidão. Uma cortina de névoa embaça ainda mais a paisagem acinzentada. O céu tem um matiz azul esmaecido, borrado com nuvens de caramelo, o Sol dorme diminuto debruçado numa dessas nuvens. Uma linha de chocolate delineia o horizonte, escorrendo pelo céu e mesclando-se ao azul esmaecido, fazendo-o uma aquarela de tons amarronzados - nuanças cor de canela, café, açúcar mascavo. Cores deliciosamente tristes. O Inverno colore a tarde solitária com suas cores encardidas.
Gotas de tristeza borrifam meu olhar, escapando-as e inundando a face. E antes que um manto de solidão desenrole-se sobre minha alma, cobrindo-a com um grosso cobertor de melancolia, desdobrando no peito o peso da tua ausência, estendendo em mim saudade, eu fecho os olhos e nevo lembranças agasalhando a memória com ternas recordações. Eu me visto do que fomos envolvendo-me de passados. Lembrar de ti é semear um Sol em mim, derretendo o Inverno que carrego. Quando nevo lembranças tuas, nevo um Sol que arde, resplandece, vibra, ofusca a memória. Lembrar de ti é cultivar um jardim de Verão, florescendo sóis. Quando nevo lembranças tuas, nevo um Verão que aquece a memória.
Tu és muda de Verão que plantei na memória para colher Sol.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Mais uma carta

"Escrevo-te estas mal traçadas linhas meu amor
Porque veio a saudade visitar meu coração
Espero que desculpes os meus erros por favor
Nas frases desta carta que é uma prova de afeição.
    
Talvez tu não a leias mas quem sabe até darás
Resposta imediata me chamando de 'Meu bem'
Porém o que me importa é confessar-te uma vez mais
Não sei amar na vida mais ninguém."
    
Legião Urbana
    
Escrevo-te esta carta para falar sobre saudade - a minha saudade. Saudade que atracou no meu peito, fazendo-o cais somente de desembarque. Nau que ancorou e nunca mais partiu em busca de outros mares. E começo esta sem formalidade porque saudade é moça sem etiqueta, mal educada, desprendada. Adentra o coração sem pedir licença, dele faz moradia, parte sem despedir-se e quando menos se espera a visita retorna, fala alto, inquieta, malcriada, só borda lembrança, só pinta nostalgia e não sabe varrer passado.
Perdoa-me a letra disforme, os traços tortos e mal desenhados. A mão treme enquanto desliza pelo papel escrevendo sentimentos, sentindo palavras. Deve ser a emoção, saber que tuas mãos vão tocar este papel e que teus olhos vão enxergar essas letras disformes, esses traços tortos e mal desenhados, mas que eu não vou poder sentir o toque aveludado das tuas mãos abrandando minha dor, acolhendo-me com um abraço apaziguador como quando desmoronava no teu colo pedindo abrigo nem vou poder olhar no fundo dos teus olhos e ver o Sol amarelo-ouro que se espreguiçava no horizonte da tua pupila ao ver meu semblante nascendo diante do teu. E o coração segue ditando as palavras para minha mão.
Acendo mais um cigarro. Ao lado uma dose de whisky. O relógio marca 03h57min da madrugada. No rádio uma canção me faz lembrar aquele Verão que passei ao lado teu. E eu cantarolo a nossa canção sem ti, tua voz rouca cantarola somente na memória, e eu sigo a canção - um dueto de um. A lembrança daqueles dias de Sol a pino, noites de céu empoeirado de estrelas, vaga-lumes no olhar, riso faceiro, face corada, samba no coração e borboletas no estômago arde, resplandece, vibra, ofusca os campos da memória. Depois que partiste é Verão apenas nas recordações. Contigo o Verão também partiu. O Sol adormeceu numa nuvem nublada, as estrelas do céu foram varridas, os vaga-lumes do nosso olhar foram apagados por chamas de ira, inundou-se de lágrimas o riso, o corado da face desbotou, o samba no coração desafinou e as borboletas de asas partidas no estômago desmaiaram. Sem ti é só Inverno. Chuva de melancolia que me banha. Solidão que me congela. Saudade nevando incessantemente dentro de mim, cobrindo a memória com um manto frio de lembranças.
O porta-retrato emoldurado de saudade sobre o criado-mudo tagarela tantas recordações. A fotografia amarelecida tem rasuras de tempo, só não se atreve o tempo a rasurar tua lembrança. O instante aprisionado pelas lentes da câmera fotográfica eternizando o momento em detalhes que escaparia as lentes da retina. Eu posso ver o Sol que fazia na tua pupila naquele dia, mas em vão tento sentir o toque aveludado das tuas mãos.
Outra noite insone atravesso, e essa saudade esperta não adormece. A Lua me espia aconchegada no ombro das estrelas. Elas fazem um cafuné na Lua, enquanto a vigília não se encerra. Lua e estrelas recortadas contra um fundo preto azulado. Lua, estrelas e céu preto amanhecendo são a minha companhia nessas noites de solidão e saudade sufocante.
A fumaça do cigarro acinzenta o olhar embaçado de tristeza. Uma dose de whisky para duas doses de saudade, embriago-me com lembranças.
Sinto-me ínfima perto da saudade que cresce cá dentro do peito. Inútil tentar tornar o solo árido, o adubo que o fertiliza é amor. E se podo a saudade, ela cresce mais robusta. Se a arranco pela raiz, o arado da memória prepara o solo para receber mais sementes de saudade. Penso que nem o tempo seja a erva-daninha da saudade. E o jardim de saudade que cultivei agora cuida do seu jardineiro.
Perdoa-me os borrões no papel. O coração transbordou saudade, e os olhos marejados de saudade derramaram-na, escorrendo pela face e pingando no papel. Um pedaço do mar de saudade que guardo no peito vai contigo.
Espero que estejas bem, desejo que teus dias sejam de calmaria, mas não esperes de mim que eu deseje que encontres um novo amor, é eu sei vais dizer que eu tenho que aprender a ser desprendida, ora fazer o que se essa saudade me prendeu a ti? Saudade é nó que nos amarra ao passado. Manda-me uma carta e não se esqueças de perfumá-la com teu cheiro. Durmo abraçada as outras cartas, até o perfume escapar, como se me abraçasse a ti. E mesmo quando o perfume delas escapa, ainda sinto teu cheiro, porque teu cheiro não escapa da memória. Deleita-se a saudade com o teu perfume.
Desculpa se te sou inconveniente arrastando passados mortos, ontens perdidos colecionando cartas do que passou. Tua ausência ainda me dói, e essa é a maneira que encontrei de te fazer presente. Cartas minimizam a distância, a indiferença que ficou entre nós. Cartas trazem um pouco de ti para mim, é como se eu te lesse. Cartas levam um pouco da minha saudade para ti, é como se tu me lesses.
    
Com esmero da tua (e para sempre tua) amada.
    
P.S.: Essa noite decobri que sou uma metáfora de saudade!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Teu abraço

"Saudade do teu grande abraço."
    
Clarice Lispector
    
O Sol espreguiça-se no horizonte abobalhado de amor e embebido em saudade fresquinha, sorrindo faíscas de estrelas, após um encontro com a Lua durante a noite insone salpicada com estrelas flamejantes e enfeitada com eclipse. Terno encontro breve. Eternidade de segundos, infinito é o instante que se olham atônitos. A aurora enrubesce o horizonte, corando a face da manhã que timidamente desfaz a noite e esmigalha a escuridão. O Sol espia taciturnamente meu sono leve, enquanto adentra sorrateiro meu quarto pelas frestas da janela. Sua luz tremeluzente baila no ar, valsa um bolero nas paredes do quarto, dança pelo corpo, esse ainda à mercê do sono, ensaia passos com os cabelos. Um fio de luz segura minha mão e me convida para dançar, outro se deita ao meu lado. Um fio de luz faz cócegas no olhar sonolento, outro faz um cafuné na nuca. Nuvens de marshmallow caminham pelo céu azul clarinho ao som do canto afinado dos pássaros. O colorido das flores mescla-se ao colorido das borboletas e beija-flores. O ruflar das cores para voar no azul infindo. Um mergulho na calmaria. Um mar no céu beijado por ondas de nuvens.
Mas a cortina da serenidade se fecha e um véu de neblina cobre a manhã. Uma nuvem cinzenta embrulha o Sol, envolvendo-o em palidez. O horizonte outrora em chamas apaga-se. O corado esmorece. A luz que bailava no ar desmaia em preguiça. Nuvens de chocolate amedrontam o céu, afugentando o azul, acolhendo o marrom, o caramelo e o cinza. O canto dos pássaros emudece em desarmonia. As flores murcham, franzindo a beleza. As borboletas e os beija-flores cessam o vôo. As cores esvaeceram. Uma calmaria inquietante, um silêncio ensurdecedor.
O céu em fúria maldiz o dia com relâmpagos e trovões. O dia que acordou cantando bossa-nova agora canta heavy metal.
O céu chora os primeiros pingos de melancolia. A canção da chuva cantarola grave o 'dó' e alcança o 'si' num coro agudo. Tenho 'dó' de mim 'si' essa chuva não passar. Uma tempestade se ergue sobre mim e outra dentro de mim. A chuva torrencial inunda as ruas, agredindo cada pedaço da cidadezinha, e uma chuva chove solidão dentro de mim banhando-me toda com excesso de falta. Os cobertores não me aquecem porque o frio é cá dentro, no peito. A pele arrepia-se, uma xícara de café não esquenta um coração puído por mágoas, desnudo de amor. Eu fecho os olhos e imagino teu abraço contornando meus vazios, mas só consigo abraçar tua ausência. Imagino debruçando-me no teu ombro e sentindo teu abraço abrandar as dores, mas só consigo sentir tua distância. Imagino teu abraço acalentando as perdas, aconchegando os medos, envolvendo as dúvidas, mas só tua indiferença me afaga, tua indiferença é que se aproxima, apertando-se a mim, tua indiferença é enrola-se comigo.
Eu quero morar no teu abraço. Abrigar-me nele da minha tempestade. Embala-me no teu abraço, quero nele adormecer enquanto chove, porque em teu abraço faz Sol. Agasalha-me com teu abraço, aqueça o frio que faz em mim. Embrulha-me na ternura do teu abraço, empacota meus vazios, dores, perdas, medos e dúvidas.
Saudade dos dias de Sol e céu azul clarinho que faziam sob teu abraço.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Eu estou onde tuas lembranças estão

"Eu não moro mais em mim...
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?"
 
Adriana Calcanhoto
 
O meu olhar repousa debruçado nas nossas fotografias amarelecidas pelo tempo, envernizadas por um sentimento que não desbota - amor que não envelhece. A fotografia aprisionando o agora que se eternizou, o passado repetindo o instante. Um hoje que se faz sempre, mesmo hoje esse 'sempre' sendo 'nunca'. O porta-retrato emoldurado com saudade, enfeitando o quarto com ontem. E os meus olhos nublados caminham pausadamente por entre as fotografias e chovem. Chovem tristeza acinzentando o olhar outrora ensolarado. E o meu olhar recorda o que passou e fotografa com saudade as velhas fotografias. Eu refaço com pedaços de nós o que o destino desfez. As minhas mãos afagam tuas cartas buscando nelas o veludo do teu toque brando. Minhas mãos acolhem tuas cartas querendo sentir entre a palma delas a companhia das tuas mãos. Minhas mãos aconchegam-se nas tuas cartas querendo sentir o calor das tuas mãos e nelas adormecer em carinho. E minhas mãos acariciam tuas cartas solitárias querendo sentir tuas mãos passeando livres pelo corpo, corpo que se abriga no teu abraço após morrer em carícias. Tuas palavras abandonadas nas cartas, nas cartas esquecidas por ti. Cartas vazias de ti. Cheias da tua distância. Ausentes do teu abraço. E às vezes eu fecho os olhos e imagino aquelas palavras que bailam imóveis no papel valsando ao pé do ouvido, palavras adocicadas que para longe um vento de desencontro soprou. As tuas palavras dançantes que escorregaram distante de mim. E a minha voz cantarola embargada a nossa canção que toca ao fundo, um coro solitário e desafinado - eu e o relógio tiquetaqueando sua canção do tempo. E a minha voz rouca chama teu nome, lembranças de um tempo perdido presas num velho disco arranhado pelo teu esquecimento. O olfato navega no teu perfume que ainda resguardam as minhas roupas. Minhas roupas agasalhando restos de tuas lembranças. Eu te respiro! Um pedaço teu daquele tempo agora mora em mim, infla-se o peito de uma vida que passou, soprando recordações na memória, ventania de lembranças, redemoinho de reminiscências do nosso amor. Eu inspiro lembranças e expiro saudade.
Eu não estou mais em mim, eu estou nas lembranças que tu deixaste. Eu não moro mais em mim, eu moro onde qualquer recordação tua mora. Eu fiquei rodopiando na memória, dançando ciranda com tuas lembranças.

quarta-feira, 24 de março de 2010

E lembrança nenhuma o tempo levará

"Não passam as dores, também não passam as alegrias. Tudo o que nos fez feliz ou infeliz serve pra montar o quebra-cabeça da nossa vida, um quebra-cabeça de cem mil peças.
[...] Não há nenhuma peça que não se encaixe. Todas são aproveitáveis. Como são muitas, você pode esquecer de algumas, e a isso chamamos de 'passou'. Não passou. Está lá dentro, meio perdida, mas quando você menos esperar, ela será necessária para você completar o jogo e se enxergar por inteiro."
 
Martha Medeiros
 
A Lua Crescente me espia solitária pelas frestas da janela velando meu sono inquieto. Debruçada na janela do meu quarto me sorri um sorriso delgado, deixando escapar um fio de luz tremeluzente que atravessa as frestas da janela caminhando trôpega no ar até encontrar a cama, deitando-se nela junto ao corpo meu. A Lua aconchega-se nos braços da noite, recostando-se no manto negro que se desenrolou cobrindo o céu com negrume. Céu negro, estrelas dispersas e meia-Lua. Uma xícara de café com gotículas de leite e ao lado uma rosquinha de coco pela metade disposto naquela mesa gigante para alguém deliciar-se. Um sopro adentra pela janela agora entreaberta, fazendo dançar as cortinas, para que o quarto respire a noite lá fora. O sopro sussurra brisa ao pé do ouvido. E eu ouço a canção silenciosa da noite dedilhada em mim. O relógio tiquetaqueando versos de tempo. Eu tento digladiar a insônia vestida com minha armadura de lençol. Uma nuvem cinza encobre a Lua, fazendo-se a noite, levemente prateada, escuridão. E a escuridão pincela abismos nas paredes do meu quarto. A ausência desenha solidão cá dentro. Meus pensamentos tagarelam com o travesseiro. A cama fica apequenada para um corpo que não quer ficar, para um corpo que deseja liberdade. E as paredes do meu quarto me sufocam, o concreto me esmaga. Uma lembrança tua faz cócegas na memória fazendo sorrir no coração uma saudade. Quando pensei que tu há muito adormeceras dentro de mim tu, outra vez, acordas esperto. E eu levanto com o peito gargalhando saudade. O meu antiquário de lembranças abre-se, esvoaçando recordações, num redemoinho de lembranças eu mergulho. E o meu antiquário conserva as lembranças mais antigas, sem nenhum arranhão, nenhuma delas está quebrada, nenhuma delas o tempo empoeirou ou desbotou. Lembranças que o tempo não tocou com aspereza ou esquecimento. E eu submersa nessas lembranças deixo a noite embalar-me em sua musicalidade, sonolenta eu adormeço embrulhada em lembranças tuas. Amanhã é novo dia talvez outras lembranças venham me visitar, e que eu não esqueça que elas não se esquecem de ser lembradas. Lembrança é um passado acontecendo hoje e amanhã e sempre porque lembrança nenhuma o tempo arranca, elas ficam enraizadas na memória e vez em quando florescem no coração. Lembrança nenhuma, mesmo leve, o tempo não leva...
E tu certamente acordarás outra vez dentro de mim. Tu não adormeces.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Partida

"Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei..."
 
Chico Buarque
 
Ele me olhou com aqueles olhos negros. Negro como o céu das noites de Lua Minguante. Mas eu não podia dizer que era os mesmos olhos negros de sempre. Os olhos de outrora, embora fossem negros como o manto que cobre o céu nas noites de Lua Minguante, no fundo deles uma Lua Cheia imponente me sorria, iluminando com fios de luz o negrume dos teus olhos anoitecidos, uma constelação de estrelas flamejantes piscava para mim, incendiando teu olhar noturno. Os olhos de agora ainda eram negros, porém o preto que vestia teus olhos estava acinzentado. Teu céu, esmorecido. Encoberto por uma espessa cortina de ausência. Nublado de tristeza. No fundo dos teus olhos não pude ver a Lua Cheia que todo o dia me sorria, estampando na minha face sua luz. Talvez hoje tenha ela acordado triste, encolhida num canto. Talvez tenha ela partido à procura de outros olhos, querendo ser em outro céu. A constelação de estrelas flamejantes que ardia em chamas, soltando fagulhas no meu riso, apagou, esvaeceu o fogaréu de estrelas. Talvez tenha sido ela varrida do céu, e a poeira alguém tenha escondido por baixo do tapete negro dos teus olhos. Talvez uma ventania tenha soprado ela para longe. Nos meus olhos cor de Outono uma Primavera colorida desenrolava-se sempre que via os teus em chamas. O teu olhar regava o meu com brilho fazendo florescer as mais belas flores no jardim do meu olhar. Eu te oferecia um buquê com meus olhos. Hoje, quando meus olhos viram os seus apagados, secaram. E as flores murcharam. O jardim amareleceu. O Outono embrulhou a primavera em melancolia. Teus olhos sussurram um adeus, e os meus tagarelaram um 'fica, fica [...]', minha mão pela última vez tocou o veludo da tua, um pedido em silêncio de 'fica, fica [...]', teus olhos me olharam nublados e sussurraram em voz alta o fim. Silenciamos a partida, palavreando olhares. Os meus olhos roubaram o nublado dos teus, e eu fiquei serenando atrás da porta tua ausência.
Tu partiste partindo em pedaços a minha primavera. E eu me pergunto 'será que teus olhos serão para outros Lua Cheia e constelação?' Eu queria mesmo que fossem Inverno. Inverno e escuridão.
E atrás da porta entreaberta ainda estou esperando tua volta, esperando teu olhar cultivando Primavera no meu fazendo florescer outra vez as mais belas flores. Vez em quando alguma florzinha floresce e logo seca por não ter teu olhar para regá-la, por enquanto tu semeias somente tristeza porque teu arado é ausência. E só chove.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Solidão de prata

"Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado, juntando
O antes, o agora e o depois
Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho!"
   
Peninha
   
O vento adentra no meu quarto sem pedir licença, pela janela entreaberta, faz dançar com leveza as cortinas, esvoaça os meus cabelos acariciando a nuca com uma brandura que lembra o toque delicado das tuas mãos passeando entre os meus cabelos, afaga o corpo, arrepia a pele, envolvendo-me num aconchego frio. As cortinas se abrem num passo de dança ensaiado, a janela do meu quarto é o palco para a noite se apresentar.
No manto negro que se desenrolou sobre o céu infinito, estrelas saltitam - cintilantes e sorridentes, pontinhos de brilho que se espalham pelo manto negro, luzinhas que se acendem e se apagam, umas piscando para as outras. Uma sinfonia de brilho. Chuva fina de prata serenando pingos de luz. E essas estrelas incendeiam meu olhar nublado. A Lua - a dama da noite, sobe ao céu para fazer companhia às estrelas. Uma Lua Cheia - imponente e amarelada decora a noite. Ela é um girassol nesse jardim de estrelas. Ao redor da Lua amarelada uma aréola branca circunda-a, abraçando-a, uma fusão de amarelo e branco. E os seus fios de luz fazem cócegas no meu olhar triste. 'Dentro dela tem Sol!', eu pensei. Essa Lua-Sol arde em sonhos com o seu amado.
Um vento de saudade sopra no coração, arejando a memória com lembranças de um antigo amor. Ah esse coração que vez em quando faz dançar uma saudade e esvoaça lembranças por mim nunca esquecidas. Reminiscências de um ontem que não passou. Recordações que não envelhecem. O pensamento tagarela histórias que o tempo não desbotou. O silêncio sussurra sua ausência. E eu fico sonhando acordado lembrando o amor que se perdeu. 'Vivendo do que fomos ainda estou' diz a canção que está tocando no rádio agora, a nossa história é feita apenas de restos de passado, eu me prendo a ontens num laço de saudade. Vou rasgar a noite em vigília, espiando o céu à espera de que uma estrela tropece e caia para que eu peça você outra vez aqui...
Essa noite é uma metáfora da minha solidão. Solidão de prata, brilho que não me acende de alegria.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Onde estão tuas mãos?

"Ai, suas mãos onde estão?
Onde está o seu carinho?
Onde está você?
Se eu pudesse buscar
Se eu soubesse aonde está
Seu amor, você..."

Maysa

O vento cantarola notas de saudade, batendo com sua canção à porta do peito, acorda o coração do cochilo de esquecimento e ele volta a cantar com voz alta e grave 'Saudade és a minha dama de companhia /Desde o adeus daquele amor /A dona alegria nunca mais me visitou /E o meu samba é de agonia /O meu canto é triste /De nós só uma lembrança desbotada restou /Eu me reviro pelo avesso tentando arrancar essa dor /Cá dentro só saudade existe!'. A brisa sopra afagando a nuca, esvoaça os cabelos bailando no ar com eles, passeando pelo corpo, envolvendo-me toda. Ela traz contos de céu e mar e cochicha ao pé do ouvido teu nome. E o coração desatina cantando saudade. O azul amarelecido do céu mergulha no azul esverdeado do mar. Ao azul amarelecido do céu mesclam-se o laranja, o amarelo, o rosa, o lilás e o vermelho de fim de tarde. Nuvens de chocolate dispersam-se sobre o céu da tarde que em silêncio adormece. Elas caminham a passos trôpegos traçando uma reta de chocolate que escorre pelo céu pingando marrom. Uma nuvem mais infantil me convida para brincar de quebra-cabeça, e no céu um 'S' faço surgir, enfeitando o fim de tarde. 'S de saudade!', suspira coração. As nuvens serenam um fino choro passageiro, borrando o céu, deixando-o feito aquarela. O Sol em chamas debruça-se no poente incendiando-o. O vermelho costura o poente. Uma linha alaranjada arremata o horizonte. O vermelho do poente mescla-se ao laranja do horizonte e abraçados mergulham no agora marrom alaranjado do mar. O Sol despede-se para a dama da noite subir ao palco. Um manto negro desenrola-se cravejado com estrelas, estampando uma Lua Cheia sorridente. O vento cantarola e o coração acompanha a canção do vento num coro solitário. A brisa fria arrepia o corpo e ele deseja ser acolhido nas tuas mãos. 'Mas onde estão tuas mãos?' perguntam as minhas. Elas desejam encaixar-se nas tuas debaixo desse manto estrelado. A Lua espia serena minha solidão e pensa 'Pobrezinha, ela deve estar à espera do seu Sol!'. Os pensamentos tagarelam tempestade e desejam ser silenciados pelo afago terno das tuas mãos. O coração pequenino deseja agigantar-se de alegria ao toque de felicidade das tuas mãos. E as feridas desejam ser cicatrizadas pelo aveludado das tuas mãos. Minhas lágrimas desejam secar ao Sol das tuas mãos. A Lua com pena, empurra uma estrela do céu para que eu faça um pedido e eu peço o aconchego das tuas mãos nas minhas mãos. E a Lua sussurra 'Que você encontre seu Sol!', amanhece todos os dias e eu não tenho Sol... Onde estão tuas mãos que me guiavam na escuridão? Tuas mãos onde estão? As minhas adormecem na solidão embebidas na ausência das tuas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Lembra

"Onde você estiver, não se esqueça de mim
Com quem você estiver não se esqueça de mim
Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim
Onde você estiver, não se esqueça de mim
Mesmo que exista outro amor que te faça feliz
Se resta, em sua lembrança, um pouco do muito que eu te quis
Onde você estiver, não se esqueça de mim..."

Roberto Carlos

Se acaso uma outra carregar nos olhos todo o azul do céu ou o verde refrescante da relva ou o amarelo mel preso às asas das abelhas, lembra do infindo amor, da calmaria e dos voos de liberdade que abrigavam meus olhos.
Se acaso uma outra tiver na face estampado o mais largo riso de Sol de Verão, lembra do riso tímido que a minha face estampava assim como a Lua minguante que o imenso manto negro estampa, e mesmo delgada encanta os amantes.
Se acaso uma outra tiver preso entre os lábios o picante sabor das aventuras, lembra que eu tinha guardado entre os lábios o terno sabor da eternidade que cada instante carrega.
Se acaso uma outra sussurrar ao pé do ouvido as palavras de veludo que tu sempre quiseste ouvir, lembra da canção que eu cantarolava pra ti, das coisas de amor que eu te dizia em silêncio, do 'Eu te amo' nunca dito, embora feito.
Se acaso uma outra carregar na pele o perfume adocicado das flores, tiver escondido nas curvas do corpo desejos fogosos, lembra do aroma sereno que eu carregava nos ombros, da manhã que escondia minha nuca, do cheiro refrescante da brisa que os meus cabelos esvoaçavam.
Se acaso uma outra tiver a pele coberta com o acetinado das estrelas, lembra que eu encobria com o veludo das rosas os espinhos de cada dia, assim como as roseiras que em meio aos espinhos floresce rosas ímpares.
Se acaso uma outra fizer o teu coração descompassar, o passo desajeitar, a respiração desconsertar, borboletas bailarem no estômago, a face corar-se, os olhos serenarem estrelas, o riso enlarguecer, as mãos tremularem e o corpo arrepiar, apenas lembra de mim...
Guardas no canto mais bonito da tua memória, decorado com a mais bonita saudade, as mais bonitas lembranças nossas. Não deixe que eu morra em ti.
Ah não meu amor, não esqueça de mim...

sábado, 8 de agosto de 2009

Que o nosso amor nunca anoiteça

"(...) eu trocaria a eternidade por esta noite!"

Nando Reis

Os olhos te avistam ainda distante, as mãos congelam, as pernas tremem, o coração bate forte e os olhos te seguem inquietos até a tua chegada.
Tu me ris um riso largo, e a face cora-se de timidez e te rio um riso manso. Nos teus olhos negros chovem chovem estrelas cintilantes e a poeira delas iluminam teu semblante. E no acastanhado-outono dos meus olhos, brota uma primavera.
Tu seguras forte minha mão e ela logo se aquece no calor da tua. As pernas paralisam equilibrando-se na eternidade daquele instante. O coração não pára de sambar, impossível acalmar-se ao lado teu. Tu me acolhes num abraço que aveluda a alma.
Tu me falas baixinho, ao pé do ouvido, arrepia todo o corpo, acariciando com palavras adocicadas o gesto, açucarando o silêncio que havia enquanto nossos olhos tracavam confissões.
Uma sinfonia verbal silencia a saudade, mas sem adormecê-la, deixando um punhado de saudade guardada no peito, para que a voz da saudade continue ecoando mesmo quando haja uma vírgula entre eu e tu.
Um afago feito na nuca desata o nó da ausência. Um beijo na ponta do nariz. O sorriso de menino bobo. Uma promessa, cócegas no olhar, gargalhadas.
Olhos, pele, mãos, braços, ouvidos, nucas, corações. Testemunhas dum sentimento.
Envolvendo-nos num abraço fugaz, um manto negro cravejado com estrelas sorridentes, enfeitado com uma Lua Cheia. Uma estrela bêbada tropeça no céu, desmaiando no horizonte. Fecho os olhos e peço 'Que essa noite nunca amanheça...'
Tu me falas com os olhos sorrindo 'Ainda que amanheça, nosso amor nunca anoitecerá!' E me afagas com um abraço e me acolhes entre as mãos.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

"O meu melhor namorado"

"Já conheci muita gente
Gostei de alguns garotos
Mas depois de você
Os outros são os outros
Ninguém pode acreditar
Na gente separado
Eu tenho mil amigos mas você foi
O meu melhor namorado."
         
Kid Abelha
     
O melhor olhar. O melhor riso. O melhor beijo. O melhor toque. O melhor abraço. O melhor afago. O melhor sussurro. A melhor promessa. A melhor palavra. A melhor companhia. O meu melhor namorado.
No teu olhar serenavam estrelas cadentes salpicando com luz meus olhos nublados de lágrimas. Teu riso de menino bobo estampava na minha face marcada com linhas de ilusões a felicidade de um instante que disfarçava-se de eterno. Teu beijo doce inundava meus lábios amargos. Teu toque aveludava as feridas cicatrizando as decepções passadas. Teu abraço fortalecia meus desejos, enfraquecia meus medos. Teu afago sereno acalmava as dores. Teus sussurros dançavam ao pé do ouvido com o arrepio do afeto, ao som da música dos segredos confidenciados nas entrelinhas do momento. Tuas promessas de um futuro bom enfeitava todos os dias meu céu cinzento com um lindo Sol alaranjado. Tuas palavras adocicadas silenciavam todas as incertezas. Tua companhia pintou em mim sonhos, fazendo-me acreditar em tudo tudo outra vez...
Guardo de ti meu melhor namorado, a melhor saudade, rebrilham na memória do meu coração velhas lembranças tuas, as mais bonitas lembranças... Lembranças que vão amarelecendo, desgastando-se pelas mãos ásperas do tempo, lembranças, só. Lembranças que um dia serão apenas nuvens dispersas num imenso céu azulado. Lembranças!
Mas ainda continuarei procurando-te noutros corpos...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Como se fosse

"Ainda dá tempo de mudar de rumo, partir de repente, mochila nas costas, rumo aos montes desconhecidos..."
         
Sylvia Plath
     
Como se fosse Sol e Lua num encontro envolvente e inebriante, tu e eu juntos novamente enfeitados com saudade, abobalhados de ternura, amarelecendo as velhas lembranças.
Como se fosse uma estrela solitária cintilando na imensidão de um céu negro acinzentado, cintilou nos teus olhos feridos pelo sal das lágrimas estrelas pequeninas, sorridentes...
Como se fosse uma flor torta desabrochando em meio à pedrinhas ponte-agudas, desabrochou na tua face enrugada de dor um riso manso fazendo esconder as marcas de desilusões.
Como se fosse um raio de luz alaranjado misturando-se ao azul pálido do fim de tarde, uma alegria incontida corou tuas bochechas antes embebecidas de sofrimento.
Como se fosse uma folha de outono que desprende-se da árvore, baila no ar e cai desajeitosamente sobre o tapete envelhecido, tuas mãos desprenderam-se do medo, bailaram na incerteza e desajeitadas procuram as minhas.
Como se fosse as ondas do mar acariciando a areia da praia, teu toque inundou minha pele de amor.
Como se fosse um pássaro procurando aconchego no calor do ninho, teus braços vieram ao encontro do meu abraço para aquecer o frio da solidão.
Como se fosse um beija-flor que após o inverno sai à procura da mais linda flor para deliciar-se com teu doce, teus lábios procuraram os meus para amenizar o gosto acre que fica das decepções.
Como se fosse o vento soprando melodicamente sua canção, aveludando o ar com a leveza do teu canto, tua voz soprou silenciando a ausência a nossa canção há muito tempo engavetada na memória do coração.
Como se fosse uma chuva incessante confessando teus segredos para o chão, tu sussurraste ao pé do ouvido as confissões mais adocicadas.
Como se fosse um arco-íris colorindo o céu nublado após uma longa chuva, a vida veio de novo colorir com nuances quentes nosso amor emoldurado com saudade.
E como se fosse o Sol despedindo-se da Lua com um belo pôr-do-Sol, convidando-a para um próximo encontro, tu sorriu aquele sorriso largo, embora não escondesse os olhos marejados de tristeza, e disse com a voz trêmula 'Vem! Amanhã o Sol nascerá novamente... Vem! Ainda dá tempo de mudar de rumo, recomeçar...'

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Eu fiquei a tua espera

"Onde a pálpebra aconchega
Onde já fechou o bar
Na esquina da alameda
Na virada da vereda
Eu estou a lhe esperar..."

             
Os Paralamas do Sucesso
         
Entre a certeza que desmorona e a lágrima incessante a rolar, eu fiquei a tua espera.
Entre a promessa que se desfaz e o horizonte que se distancia, eu fiquei esperando por você.
Entre a eternidade breve e as mãos desunidas, eu fiquei, eu fiquei esperando você voltar.
Entre o amor que se perde e o tempo que devora, eu fiquei somente a tua espera.
Na canção presa a um disco arranhado, nas lembranças emolduradas num retrato em branco e preto, eu fiquei a tua espera.
Na saudade que não se cala, no silêncio das tuas palavras, eu fiquei esperando por você.
Na distância do teu abraço, na tua ausência entre meus lábios, eu fiquei, eu fiquei esperando você voltar.
No vazio dos meus olhos sem os teus, no adeus sem resposta, eu fiquei somente a tua espera.
E a cada pôr-do-Sol continuarei a tua espera...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Teus olhos

"Meus olhos choram a falta dos teus
Esses olhos que foram tão meus..."
         

Maysa
     
Meus olhos 'inda procuram noutros olhos o riso de menino bobo que enfeitava teus olhos ao ver os meus.
Meus olhos sentem saudade dos salpicos de estrelas que bordavam teus olhos a cada riso sem jeito meu.
Meus olhos sentem saudade daquelas palavras ditas com teus olhos de promessas de veludo.
E de saudade meus olhos choram por não ter mais teus olhos a beijar os meus...
E de chorar meus olhos estão feridos. O céu ensolarado dos meus olhos nublou. Hoje só nuvens cinzentas e vazio.
Meus olhos guardam os teus... E se dobram num pranto a lembrar que teus olhos não são mais meus...

sábado, 20 de dezembro de 2008

Bem te quero

"Você me fez sentir de novo o que eu Já não me importava mais
Você me faz tão bem
Você me faz, você me faz tão bem..."
           
Detonautas
     
Olhos feridos pelo sal de lágrimas inconscientes. Lábios temperados com o vinagre da vida. Palavras ásperas. Coração apertado de vazio. Mãos trêmulas. Face marcada. Meio riso.
Quando me perdia por curvas incertas, me encontraste...
Chegaste para apagar as cicatrizes do antigo amor, envolto de notas soltas de esperança. Chegaste salpicando meu olhar com as estrelas do teu olhar.
Chegaste preenchendo o ácido espaço entre meus lábios com tua doçura. Chegaste tocando-me com o veludo de tuas palavras.
Chegaste bordando o coração com saudade. Chegaste tomando-me em teus braços de promessas.
Chegaste corando minha face com o tom do amor. Chegaste estampando risos largos.
Chegaste. Talvez sejas breve, mas ainda que breve serás eterno.
Bem te quero.