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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Detalhes


"Eu me agarrei às coisas que eu não podia ter imaginado - como o cheiro dele."


Stephenie Meyer

Um véu de neblina veste a noite soturna. Sobre o céu enegrecido desenrola-se um manto de veludo cinza. Um veludo que fere meus olhos como um espinho. O cinza poda a beleza tímida da noite silenciosa. A Lua Nova adorna com singeleza o manto aveludado, deixando escapar uma nesga de luz tremeluzente. A luz bailarina adentra o quarto sorrateiramente pelas frestas da janela. E dança serena... A convite da luz, a brisa gélida vem dançar com meus cabelos, e os pensamentos esvoaçam com a brisa. Uma nuvem cor de café encobre a Lua e a franzina chama de brilho apaga-se. Um sereno escorre do céu tristonho. E a noite compõe solidão dentro de mim.
O coração suspira saudade. O pensamento tagarela com o travesseiro. A saudade embebeda a memória fazendo desmaiar as lembranças tontas. Minhas mãos te procuram entre os lençóis áridos da tua companhia. O corpo grita em silêncio teu nome. Ao meu lado só o vazio de um adeus. E as paredes amarelecidas espiam tua ausência. Ausência que o silêncio dedilha.
No rádio uma voz grave cantarola '[...] Eu me visto de saudades/ Do que já não somos nós...' E eu me fantasio de ontens perdidos, histórias desbotadas. Eu me agarro às recordações minúsculas de nós dois. Detalhes que aos poucos o tempo foi borrando. Minúcias de amor. Detalhes às vezes mesquinhos. Recordações solitárias da companhia da tua memória.
 O teu perfume numa carta esquecido vem abraçar meu olfato. Levita no ar um aroma de lembranças. Inebria o coração, entorpece a alma, alucina a memória. Eu me agarro às recordações amiúdes como o teu cheiro escondido nas entrelinhas da carta. Os detalhes miúdos agigantam-se cá dentro. Detalhes pequeninos que crescem quando fecho os olhos e penso em ti. A memória rega com lembranças a muda de detalhes que ficaram de ti.
Adormeço com teu cheiro acariciando-me, sussurrando ao pé do ouvido o perfume de um tempo bom, aconchegada no que restou de nós dois - detalhes [...] 

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A ele, o instante maiúsculo

"Na convivência, o tempo não importa. Se for um minuto, uma hora, uma vida. O que importa, é o que ficou deste minuto, desta hora... Desta vida..."

Mario Quintana

Tanto tempo faz desde a última vez que nos vimos, e para dizer a verdade nem sei bem quanto tempo faz. Quanto tempo faz? Sei lá, se o que ficou faz da minha memória um filme sem fim. O que ficou da última vez é infindo. Eu não esqueço a última vez desde a última vez. E a última vez é um gerúndio, a última vez está sendo na minha memória congestionada de ti.
Remendei na memória cada retalho daquele último momento. A eternidade costurada com fiapos de instantes. Um mar de pequenos infinitos ponteados com barquinhos de segundos velejando à deriva do tempo, a linha de minutos arrematando ondas de horas.
Cultivei na memória a muda do agora que hoje é ontem. Semeei lembranças num solo adubado com amor, o arado é essa saudade que trago no peito, jardim de passados florescendo ontens. Uma de Primavera de recordações colorindo o fugaz com sempre.
Aquela noite nunca amanheceu na minha memória.
Uma noite tecida com fios de linho preto-azulado, bordada com estrelas faiscantes fazendo serenar fagulhas de luz incendiando o poente, outrora incandescente incendiado pelo Sol que adormecia, adornada com uma Lua Cheia amarelo-alaranjada, desenrolando o manto negro sobre o céu taciturno. Manto que nos agasalhava. O céu parecia ter sido salpicado com gotículas de leite, algumas escorriam desmaiando quietas no horizonte, embora 'inda em chamas, pingando faíscas.
Sob os fogos de artifício da noite, tocávamos sem saber a eternidade que jamais nos escaparia. Eternidade engaiolada na memória.
A Lua opulenta nos espiava atônita e os seus tênues raios de luz tremeluzentes dançavam no nosso semblante corado. A brisa agitava delicadamente nossos cabelos. As árvores valsavam tímidas. Eu te tive moço, entre os lábios, tu me tinhas pequenina, entre as mãos, hoje te tenho eterno somente na memória do meu coração, e nem sei se ao menos uma lembrança amiúde minha tu guardas. No teu ombro eu repousei o cansaço que os meus ombros carregavam. No teu abraço eu me abriguei, e as tuas mãos com um afago feito na nuca silenciaram os pensamentos tagarelas. Nos teus olhos de jabuticaba um Verão ardia derretendo os Invernos que nevavam nos meus olhos. A tua voz marejada de ternura sussurrava palavras de açúcar ao pé do ouvido.
Vez em quando surpreendíamos uma estrela cintilante despencando do céu, seguramos uma delas nas mãos, estava chamuscada, ainda quente, fechamos os olhos, apertamos a estrela indefesa e miúda contra o peito e pedimos o velho pedido: A eternidade ao nosso alcance. A traça do tempo corroeu nosso pedido. Pouco importa se o tempo não foi cúmplice daquele pedido... A eternidade está na memória do coração.
Lá fora amanhece, o Sol espreguiça-se, seus raios de luz fazem cócegas no meu olhar, eu respiro o azul-turquesa do céu borrifado com nuvens de algodão, mas na memória ainda é noite. A mesma noite tecida com fios de linho preto-azulado, bordada com estrelas faiscantes e adornada com uma Lua Cheia amarelo-alaranjada. Aquela noite de pequenos infinitos guardados nos bolsos. A noite que o tempo tornou-se minúsculo perto do que ficou. E o instante maiúsculo na memória.
Para sempre será aquela noite na memória, só lamento também ser noite no teu coração de menino velho.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Mais uma carta

"Escrevo-te estas mal traçadas linhas meu amor
Porque veio a saudade visitar meu coração
Espero que desculpes os meus erros por favor
Nas frases desta carta que é uma prova de afeição.
    
Talvez tu não a leias mas quem sabe até darás
Resposta imediata me chamando de 'Meu bem'
Porém o que me importa é confessar-te uma vez mais
Não sei amar na vida mais ninguém."
    
Legião Urbana
    
Escrevo-te esta carta para falar sobre saudade - a minha saudade. Saudade que atracou no meu peito, fazendo-o cais somente de desembarque. Nau que ancorou e nunca mais partiu em busca de outros mares. E começo esta sem formalidade porque saudade é moça sem etiqueta, mal educada, desprendada. Adentra o coração sem pedir licença, dele faz moradia, parte sem despedir-se e quando menos se espera a visita retorna, fala alto, inquieta, malcriada, só borda lembrança, só pinta nostalgia e não sabe varrer passado.
Perdoa-me a letra disforme, os traços tortos e mal desenhados. A mão treme enquanto desliza pelo papel escrevendo sentimentos, sentindo palavras. Deve ser a emoção, saber que tuas mãos vão tocar este papel e que teus olhos vão enxergar essas letras disformes, esses traços tortos e mal desenhados, mas que eu não vou poder sentir o toque aveludado das tuas mãos abrandando minha dor, acolhendo-me com um abraço apaziguador como quando desmoronava no teu colo pedindo abrigo nem vou poder olhar no fundo dos teus olhos e ver o Sol amarelo-ouro que se espreguiçava no horizonte da tua pupila ao ver meu semblante nascendo diante do teu. E o coração segue ditando as palavras para minha mão.
Acendo mais um cigarro. Ao lado uma dose de whisky. O relógio marca 03h57min da madrugada. No rádio uma canção me faz lembrar aquele Verão que passei ao lado teu. E eu cantarolo a nossa canção sem ti, tua voz rouca cantarola somente na memória, e eu sigo a canção - um dueto de um. A lembrança daqueles dias de Sol a pino, noites de céu empoeirado de estrelas, vaga-lumes no olhar, riso faceiro, face corada, samba no coração e borboletas no estômago arde, resplandece, vibra, ofusca os campos da memória. Depois que partiste é Verão apenas nas recordações. Contigo o Verão também partiu. O Sol adormeceu numa nuvem nublada, as estrelas do céu foram varridas, os vaga-lumes do nosso olhar foram apagados por chamas de ira, inundou-se de lágrimas o riso, o corado da face desbotou, o samba no coração desafinou e as borboletas de asas partidas no estômago desmaiaram. Sem ti é só Inverno. Chuva de melancolia que me banha. Solidão que me congela. Saudade nevando incessantemente dentro de mim, cobrindo a memória com um manto frio de lembranças.
O porta-retrato emoldurado de saudade sobre o criado-mudo tagarela tantas recordações. A fotografia amarelecida tem rasuras de tempo, só não se atreve o tempo a rasurar tua lembrança. O instante aprisionado pelas lentes da câmera fotográfica eternizando o momento em detalhes que escaparia as lentes da retina. Eu posso ver o Sol que fazia na tua pupila naquele dia, mas em vão tento sentir o toque aveludado das tuas mãos.
Outra noite insone atravesso, e essa saudade esperta não adormece. A Lua me espia aconchegada no ombro das estrelas. Elas fazem um cafuné na Lua, enquanto a vigília não se encerra. Lua e estrelas recortadas contra um fundo preto azulado. Lua, estrelas e céu preto amanhecendo são a minha companhia nessas noites de solidão e saudade sufocante.
A fumaça do cigarro acinzenta o olhar embaçado de tristeza. Uma dose de whisky para duas doses de saudade, embriago-me com lembranças.
Sinto-me ínfima perto da saudade que cresce cá dentro do peito. Inútil tentar tornar o solo árido, o adubo que o fertiliza é amor. E se podo a saudade, ela cresce mais robusta. Se a arranco pela raiz, o arado da memória prepara o solo para receber mais sementes de saudade. Penso que nem o tempo seja a erva-daninha da saudade. E o jardim de saudade que cultivei agora cuida do seu jardineiro.
Perdoa-me os borrões no papel. O coração transbordou saudade, e os olhos marejados de saudade derramaram-na, escorrendo pela face e pingando no papel. Um pedaço do mar de saudade que guardo no peito vai contigo.
Espero que estejas bem, desejo que teus dias sejam de calmaria, mas não esperes de mim que eu deseje que encontres um novo amor, é eu sei vais dizer que eu tenho que aprender a ser desprendida, ora fazer o que se essa saudade me prendeu a ti? Saudade é nó que nos amarra ao passado. Manda-me uma carta e não se esqueças de perfumá-la com teu cheiro. Durmo abraçada as outras cartas, até o perfume escapar, como se me abraçasse a ti. E mesmo quando o perfume delas escapa, ainda sinto teu cheiro, porque teu cheiro não escapa da memória. Deleita-se a saudade com o teu perfume.
Desculpa se te sou inconveniente arrastando passados mortos, ontens perdidos colecionando cartas do que passou. Tua ausência ainda me dói, e essa é a maneira que encontrei de te fazer presente. Cartas minimizam a distância, a indiferença que ficou entre nós. Cartas trazem um pouco de ti para mim, é como se eu te lesse. Cartas levam um pouco da minha saudade para ti, é como se tu me lesses.
    
Com esmero da tua (e para sempre tua) amada.
    
P.S.: Essa noite decobri que sou uma metáfora de saudade!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Eu estou onde tuas lembranças estão

"Eu não moro mais em mim...
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?"
 
Adriana Calcanhoto
 
O meu olhar repousa debruçado nas nossas fotografias amarelecidas pelo tempo, envernizadas por um sentimento que não desbota - amor que não envelhece. A fotografia aprisionando o agora que se eternizou, o passado repetindo o instante. Um hoje que se faz sempre, mesmo hoje esse 'sempre' sendo 'nunca'. O porta-retrato emoldurado com saudade, enfeitando o quarto com ontem. E os meus olhos nublados caminham pausadamente por entre as fotografias e chovem. Chovem tristeza acinzentando o olhar outrora ensolarado. E o meu olhar recorda o que passou e fotografa com saudade as velhas fotografias. Eu refaço com pedaços de nós o que o destino desfez. As minhas mãos afagam tuas cartas buscando nelas o veludo do teu toque brando. Minhas mãos acolhem tuas cartas querendo sentir entre a palma delas a companhia das tuas mãos. Minhas mãos aconchegam-se nas tuas cartas querendo sentir o calor das tuas mãos e nelas adormecer em carinho. E minhas mãos acariciam tuas cartas solitárias querendo sentir tuas mãos passeando livres pelo corpo, corpo que se abriga no teu abraço após morrer em carícias. Tuas palavras abandonadas nas cartas, nas cartas esquecidas por ti. Cartas vazias de ti. Cheias da tua distância. Ausentes do teu abraço. E às vezes eu fecho os olhos e imagino aquelas palavras que bailam imóveis no papel valsando ao pé do ouvido, palavras adocicadas que para longe um vento de desencontro soprou. As tuas palavras dançantes que escorregaram distante de mim. E a minha voz cantarola embargada a nossa canção que toca ao fundo, um coro solitário e desafinado - eu e o relógio tiquetaqueando sua canção do tempo. E a minha voz rouca chama teu nome, lembranças de um tempo perdido presas num velho disco arranhado pelo teu esquecimento. O olfato navega no teu perfume que ainda resguardam as minhas roupas. Minhas roupas agasalhando restos de tuas lembranças. Eu te respiro! Um pedaço teu daquele tempo agora mora em mim, infla-se o peito de uma vida que passou, soprando recordações na memória, ventania de lembranças, redemoinho de reminiscências do nosso amor. Eu inspiro lembranças e expiro saudade.
Eu não estou mais em mim, eu estou nas lembranças que tu deixaste. Eu não moro mais em mim, eu moro onde qualquer recordação tua mora. Eu fiquei rodopiando na memória, dançando ciranda com tuas lembranças.

quarta-feira, 24 de março de 2010

E lembrança nenhuma o tempo levará

"Não passam as dores, também não passam as alegrias. Tudo o que nos fez feliz ou infeliz serve pra montar o quebra-cabeça da nossa vida, um quebra-cabeça de cem mil peças.
[...] Não há nenhuma peça que não se encaixe. Todas são aproveitáveis. Como são muitas, você pode esquecer de algumas, e a isso chamamos de 'passou'. Não passou. Está lá dentro, meio perdida, mas quando você menos esperar, ela será necessária para você completar o jogo e se enxergar por inteiro."
 
Martha Medeiros
 
A Lua Crescente me espia solitária pelas frestas da janela velando meu sono inquieto. Debruçada na janela do meu quarto me sorri um sorriso delgado, deixando escapar um fio de luz tremeluzente que atravessa as frestas da janela caminhando trôpega no ar até encontrar a cama, deitando-se nela junto ao corpo meu. A Lua aconchega-se nos braços da noite, recostando-se no manto negro que se desenrolou cobrindo o céu com negrume. Céu negro, estrelas dispersas e meia-Lua. Uma xícara de café com gotículas de leite e ao lado uma rosquinha de coco pela metade disposto naquela mesa gigante para alguém deliciar-se. Um sopro adentra pela janela agora entreaberta, fazendo dançar as cortinas, para que o quarto respire a noite lá fora. O sopro sussurra brisa ao pé do ouvido. E eu ouço a canção silenciosa da noite dedilhada em mim. O relógio tiquetaqueando versos de tempo. Eu tento digladiar a insônia vestida com minha armadura de lençol. Uma nuvem cinza encobre a Lua, fazendo-se a noite, levemente prateada, escuridão. E a escuridão pincela abismos nas paredes do meu quarto. A ausência desenha solidão cá dentro. Meus pensamentos tagarelam com o travesseiro. A cama fica apequenada para um corpo que não quer ficar, para um corpo que deseja liberdade. E as paredes do meu quarto me sufocam, o concreto me esmaga. Uma lembrança tua faz cócegas na memória fazendo sorrir no coração uma saudade. Quando pensei que tu há muito adormeceras dentro de mim tu, outra vez, acordas esperto. E eu levanto com o peito gargalhando saudade. O meu antiquário de lembranças abre-se, esvoaçando recordações, num redemoinho de lembranças eu mergulho. E o meu antiquário conserva as lembranças mais antigas, sem nenhum arranhão, nenhuma delas está quebrada, nenhuma delas o tempo empoeirou ou desbotou. Lembranças que o tempo não tocou com aspereza ou esquecimento. E eu submersa nessas lembranças deixo a noite embalar-me em sua musicalidade, sonolenta eu adormeço embrulhada em lembranças tuas. Amanhã é novo dia talvez outras lembranças venham me visitar, e que eu não esqueça que elas não se esquecem de ser lembradas. Lembrança é um passado acontecendo hoje e amanhã e sempre porque lembrança nenhuma o tempo arranca, elas ficam enraizadas na memória e vez em quando florescem no coração. Lembrança nenhuma, mesmo leve, o tempo não leva...
E tu certamente acordarás outra vez dentro de mim. Tu não adormeces.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Solidão de prata

"Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado, juntando
O antes, o agora e o depois
Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho!"
   
Peninha
   
O vento adentra no meu quarto sem pedir licença, pela janela entreaberta, faz dançar com leveza as cortinas, esvoaça os meus cabelos acariciando a nuca com uma brandura que lembra o toque delicado das tuas mãos passeando entre os meus cabelos, afaga o corpo, arrepia a pele, envolvendo-me num aconchego frio. As cortinas se abrem num passo de dança ensaiado, a janela do meu quarto é o palco para a noite se apresentar.
No manto negro que se desenrolou sobre o céu infinito, estrelas saltitam - cintilantes e sorridentes, pontinhos de brilho que se espalham pelo manto negro, luzinhas que se acendem e se apagam, umas piscando para as outras. Uma sinfonia de brilho. Chuva fina de prata serenando pingos de luz. E essas estrelas incendeiam meu olhar nublado. A Lua - a dama da noite, sobe ao céu para fazer companhia às estrelas. Uma Lua Cheia - imponente e amarelada decora a noite. Ela é um girassol nesse jardim de estrelas. Ao redor da Lua amarelada uma aréola branca circunda-a, abraçando-a, uma fusão de amarelo e branco. E os seus fios de luz fazem cócegas no meu olhar triste. 'Dentro dela tem Sol!', eu pensei. Essa Lua-Sol arde em sonhos com o seu amado.
Um vento de saudade sopra no coração, arejando a memória com lembranças de um antigo amor. Ah esse coração que vez em quando faz dançar uma saudade e esvoaça lembranças por mim nunca esquecidas. Reminiscências de um ontem que não passou. Recordações que não envelhecem. O pensamento tagarela histórias que o tempo não desbotou. O silêncio sussurra sua ausência. E eu fico sonhando acordado lembrando o amor que se perdeu. 'Vivendo do que fomos ainda estou' diz a canção que está tocando no rádio agora, a nossa história é feita apenas de restos de passado, eu me prendo a ontens num laço de saudade. Vou rasgar a noite em vigília, espiando o céu à espera de que uma estrela tropece e caia para que eu peça você outra vez aqui...
Essa noite é uma metáfora da minha solidão. Solidão de prata, brilho que não me acende de alegria.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

E eu fiquei sambando lembranças

"Ela desatinou, viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando
E ela inda está sambando
Ela desatinou, viu morrer alegrias, rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando e ela inda está sambando..."
     
Chico Buarque
     
Mais uma vez a lembrança daquele Carnaval faz folia na memória. Minha memória é uma larga avenida colorida por onde desfilam dançantes e frenéticas lembranças ao som da batucada da bateria ritmada desse coração. Lembranças empoeiradas de um Carnaval de cinzas. Eu me visto com a velha fantasia, a fantasia de felicidade que se rasgou ficando em trapos e o tempo desbotou. A fantasia amarelecida de ontem. E eu me enfeito do que já não somos nós. E me maquio com um riso, mas como maquiar estrelas no céu escuro e nublado de um olhar? Como pintar a face pálida com o corado da emoção? Com que pincel se traçam os sonhos? Que cor refaz o que o tempo desfez? E eu me enfeito com uma alegria triste. O confete e a serpentina é uma chuva de tristeza e a purpurina é lágrima que ilumina a face com um brilho ofuscante. O colorido é preto e branco. A canção ficou esquecida nos tamborins de outro Carnaval. O bloco é da saudade.
E eu tento varrer a poeira rebrilhante da memória, mas aquele Carnaval não tem fim cá dentro. E eu fiquei cantando saudade, sambando lembranças...
A fantasia se rasgou, desbotou, o encanto se quebrou, o confete e a purpurina para longe o vento soprou, a purpurina a água lavou, o colorido esmoreceu, a canção nunca mais tocou, mas eu fiquei cantando saudade, sambando lembranças.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Quisera eu poder [...]

"Que eu nunca mais escute
O som da tua voz
Que eu não te veja mais, jamais...

E que não me comova mais
O teu olhar
Que tudo teu em mim se vá..."

Dolores Duran

Ah moço, nesses dias que o baú de lembranças se abre e espalha na memória retalhos de velhas recordações, remexendo o passado e bagunçando o presente com recortes de ontens perdidos, quisera eu poder guardar no teu baú de lembranças a sete chaves uma recordação minha sabor felicidade.
Ah moço, nesses dias que a saudade faz do meu coração moradia envolvendo o peito em agonia, quisera eu poder soprar essa saudade no ar e deixar o vento levá-la até a porta do teu coração.
Ah moço, nesses dias que me reviro pelo avesso tentando te arrancar de dentro de mim, quisera eu poder fazer crescer um pedaço meu dentro de ti.
Ah moço, nesses dias que duelam passado e presente, o ontem e o agora se digladiando, tento me despir das lembranças desbotadas, jogar passados murchos de tempo pela janela, me desfazer de velhas histórias, quisera eu poder fazer da tua vida um relicário das nossas melhores memórias.
Ah moço, nesses dias que o teu nome faz em mim sinfonia, enlouquecendo-me doce e calmamente, quisera eu poder fazer meu nome uma canção cantarolando a mesma melodia ao pé do teu ouvido.
Ah moço, nesses dias que latejam as feridas quase curadas por baixo das cicatrizes quase imperceptíveis, quisera eu poder tatuar no teu corpo as feridas, marcas e dores desse amor.
Ah moço, nesses dias que o coração fica amiúde de tristeza, apertado em meio a dor que rouba cada centímetro de alegria, sufocado pelo choro incessante, quisera eu poder apertar o teu coração dilacerando-o, esmagando-o em melancolia.
Ah moço, nesses dias que a tua ausência faz nublar os meus olhos, quisera eu poder fazer um sereno de saudade minha banhar o teu coração.
Ah moço, nesses dias que a minha vida deseja entrelaçar-se com a tua vida outra vez, quisera eu poder mandar nos teus passos e fazer nossos destinos se encontrarem num domingo de Sol à beira mar.
Ah moço, nesses dias que a tua presença é somente espera fazendo secar os anseios, quisera eu poder fazer florescer esquecimento. Quisera eu poder nesses dias que a saudade me aprisiona nas tuas lembranças abrir o meu baú de recordações empoeiradas e deixar que tu escapes sem regresso. Quisera eu poder nesses dias de coração inquieto, pensamentos tagarelas e lembranças passeantes na memória deixar que tu morras para sempre dentro de mim, sem que jamais renasça...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Teu nome

"A noite
enorme,
tudo dorme,
menos
teu nome."

Paulo Leminski


MMeia-noite. Corpo e alma duelam entre si ao som da sinfonia de silêncios noturna. O corpo tenta inutilmente adormecer no aconchego caloroso dos lençóis, sufocar o desassossego no travesseiro. A alma resiste ao embalo sonolento da noite, balança-se incontrolável, ela quer festejar. O corpo rende-se. A alma cantarola inquietação. O coração insone bate descompassado a sobressaltos de saudade, com seus guizos alvoroçados tilintando lembranças na memória, ressoando a velha melodia de recordações desbotadas.
Respiração pausada interrompida por suspiros de saudade. Cócegas na alma. No peito, um frenesi embebeda-me. O corpo deseja acalmar-se com o toque aveludado da tua pele. Meus braços desejam encontrar-se no teu abraço. As mãos desejam repousar na maciez das tuas. Meus pensamentos desejam ser silenciados pelo cafuné anestesiante feito na nuca. O riso deseja enlarguecer-se junto ao teu. Meus olhos desejam debruçar-se no horizonte estrelado do teu olhar. Meus ouvidos desejam ouvir aquela canção falada de palavras adocicadas. O coração deseja compor outros versos para a memória ao lado teu. Minha alma deseja dançar com a tua.
A noite dorme silenciosa, e teu nome me invade fazendo Carnaval, uma batucada de inquietação toma conta de mim. O coração toca a mesma nota de saudade, pendura guizos de lembrança, tilintando velhas recordações na memória empoeirada. Teu nome chega sem hora marcada, entra sem pedir licença e acomoda-se fazendo do peito moradia. Teu nome me invade e fica - tatuagem, no peito, na cabeça... A noite dorme silenciosa e teu nome não anoitece, teima em amanhecer dentro de mim. O negrume aos poucos cede espaço para o cinza escuro mesclando-se com o azul desbotado fazendo nascer um céu azul clarinho com retalhos de nuvens brancas espalhados por ele, no horizonte o Sol espreguiça-se para espiar a despedida da Lua, amanheceu e teu nome adentrou o dia, quisera eu que ele tivesse partido de carona com as estrelas... Só teu nome não adormece no esquecimento.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Além das palavras

"Quero poder jurar que essa paixão jamais será

Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras, momento

Palavras, palavras
Palavras ao vento..."

Cássia Eller

Em noites de calmaria embriago-me com a voz do silêncio. Paro, deito, fecho os olhos e ouço o desenrolar da noite. A saudade da Lua pelo seu amado Sol contada a Via-Láctea entre soluços. O cochichar das estrelas. O mergulhar de uma delas no mar. O espatifar-se de outra no chão. O despencar de mais uma no horizonte. A aterrissagem de outra nas areias de uma praia deserta. A viagem incandescente de um cometa. Os passos das nuvens caminhando sobre um céu negro. A serenata de amor do vento. O bater de um galho seco à janela do meu quarto. O tic-tac do relógio. O piscar dos olhos. O remexer-se na cama. A respiração pausada. A batucada no coração.
Essas noites de calmaria sempre vinham acompanhada com palavras de veludo sussurradas ao pé do ouvido. O coração aperta-se de saudade, esforço-me para lembrar as tuas palavras de amor, lembranças antigas esvoaçam na memória, dançam palavras quase esquecidas, um gosto de ternura, um alvoroço no coração, um riso enfeita a face, lágrimas inundam os olhos - alegria bordada com tristeza... E o vento de esquecimento sopra para longe tuas palavras de amor, e mesmo aquelas mais pesadas são arrastadas por ventos levinhos...
E outra lembrança amarelecida areja a memória... Posso ver teus olhos serenando estrelas e teus lábios emoldurando um riso largo, posso ouvir tua voz dizendo "Eu te amo", posso ver escrito nos meus olhos o "Eu também te amo" que calei, meus lábios atônitos observando os teus, desejando uma eternidade junto a ti, posso ver teus olhos nublados prestes a chover e um riso triste, alegria espremida entre teus lábios, posso ouvir minha voz dizendo "O meu amor por ti vai além, muito além, das palavras", e um beijo demorado como se um perdoasse a displicência do outro. Depois um branco na memória. Nenhuma palavra dançante. Um filme mudo. Apenas movimentos. A lembrança pulsante que a memória guardou foram os gestos, pequenos, grandes, gestos de Sol, as palavras aveludadas, as promessas rumo a eternidade, as juras de amor, os planos com o amanhã, todos perderam-se ou embaralharam-se no emaranhado da memória, mas os gestos, esses continuam vivos, fresquinhos na memória.
Porque palavras, qualquer vento leva soprando esquecimento. Adormeço ao som da sinfonia de silêncios, inebriada com o perfume das lembranças dos gestos teus...
O meu amor por ti jamais será palavra esquecida, levada por ventos ásperos. O meu amor por ti sempre estará guardado no peito para que nenhuma palavra o perca, para que o tempo não o desgaste.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Distância

"Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens."

Ferreira Gullar

Em meio a multidão de semblantes anônimos à memória, eu avisto o teu, fiel companheiro da saudade que carrego no peito, velho amigo das lembranças que guardam a memória.
Teu semblante mudou, não é o mesmo do retrato de recordações que enfeita a parede da memória. Teu semblante mudou, mudou de estação. Há um jardim de outono desenrolando-se sobre a tua primavera, há uma nuvem de inverno encobrindo o teu verão.
Teu semblante moreno pálido de emoção emoldura teus olhos nublados de brilho, limpos de estrelas sorridentes, um riso delgado ausente daquela alegria contagiante. Um riso alegremente triste. Atravesso horas a fio, perdida no meio da multidão tentando me encontrar no vazio dos teus olhos, procurando inutilmente o corado que empalideceu, a Lua que estampava o fundo das tuas pupilas, a alegria que deliciava-se nos teus lábios.
Teu semblante mudou. Mas dentro de mim nada mudou. Meus olhos te avistam na multidão e uma alegria inquieta percorre as ruas e becos de mim e no peito faz moradia. O coração acelera, bate forte, dança no compasso de uma escola de samba. No estômago, um balé de borboletas. E a alegria veste-se de saudade. As mãos gelam, as pernas tremulam. E eu atônita observo teu semblante entre tantos outros e todos eles parecem invisíveis aos meus olhos, os carros imóveis, o tempo congela, a vida paralisa naquele instante que se eternizará na memória do coração. A avenida congestiona-se de lembranças de tempo perdido.
E antes que a retina pudesse fotografar um último gesto teu, um segundo de distração e eu perco teu semblante moreno na multidão. Talvez fosse apenas uma lembrança de outros dias, talvez imaginação, talvez realidade, talvez realidade misturada a lembranças e imaginação, não sei...
Estive separada de ti por alguns segundos pela distância de uma avenida. Eu poderia ter cruzado a avenida e mesmo ao seu lado aquela distância continuaria existindo entre nós tão real quanto o Sol que fazia. Sim, eu poderia ter seguido em frente e atropelado aquela distância. Mas voltei. Voltei, virei, dei as costas ao que eu acreditava ser passado, miragem empoeirada de velhas lembranças. Não olhei para trás. Depois compreendi que eu deveria ter seguido em frente, que não se anda para trás quando o destino desejado é o novo, que não se caminha por velhos caminhos quando o que se busca é o horizonte. É, eu deveria ter seguido em frente. Mas voltei.
Se eu tivesse seguido em frente teria encontrado a rua do presente que faz esquina com a rua do futuro, e o teu semblante seria apenas uma imagem anônima de encanto, perdida na memória.
Ainda te espero perdida na multidão em busca daquela distância...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Da lembrança de esquecer

"Que é que eu vou fazer pra te esquecer?
Sempre que já nem me lembro, lembras pra mim
Cada sonho teu me abraça ao acordar
Como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus vai apagar..."

 
Caetano Veloso

Volta e meia esquecimento vem brincar de ciranda com a minha memória. Lembrança tenta entrar na brincadeira de roda, e roda tonta desmaiando no esforço para lembrar, puxa a cantiga e logo desafina, ensaia o passo e logo descompassa. A lembrança não desiste de tentar e quando penso que esqueci, um rodopio de recordações areja a memória, uma lembrança tua esvoaça e faz rasgar com saudade um coração de papel. Outra vez um doce engano, atravesso horas a fio perdida em esquecimento e então um acre desengano, teu nome brinca de ciranda com a memória, atravesso horas a fio rodando nas voltas da memória envolta de ontens perdidos.
E quando penso que esqueci tu vens lembrar. Uma parte de ti permanece viva na memória - latejante. E essa parte de ti não quer morrer sufocada em esquecimento.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Memória

"O que a memória ama, fica eterno. Te amo com a memória, imperecível."

Adélia Prado

E basta o peito nublar-se com uma saudade tua para serenarem lembranças, borrando a memória com velhas recordações. Eu me banho no sereno de lembranças do que fomos. Passa o tempo e não desbota nem as lembranças mais antigas e quanto mais velhas, mais vivas. A minha memória é um relógio com ponteiros girando no sentido contrário. Passa o vento e não leva nem as lembranças mais leves e as mais pesadas nem os ventos raivosos arrastam. Tuas lembranças estão presas a mim por grampos de eternidade. A minha memória é brisa à beira mar soprando lembranças em minha direção. Passa o esquecimento e nem a sobressaltos de indelicadeza arranca teu nome da memória, e quando penso que te esqueci vem outra lembrança tua dançar na memória. A minha memória esvoaça lembranças dançantes sempre ao som da mesma canção.
Não há outono que desfolhe essas lembranças da memória. Reminiscências de recordações que não desbotam, que não envelhecem. Não há inverno que congele a minha memória. Esquecimento que não cobre com sua neve escura a minha memória.
Como a primavera, a minha memória está sempre florescendo lembranças coloridas. Primavera de cores desbotadas, céu azul caramelado. Como o verão, a minha memória está sempre rebrilhando lembranças de Sol. Verão nublado, Sol envelhecido.
Carrego a memória empoeirada com lembranças faiscantes.
A minha memória é uma alameda de lembranças verdejantes. As minhas lembranças caminham na contra mão do presente. Ruas, vielas, becos congestionados com recordações inquietas. Recordações que não cansam, que não adormecem.
E na minha memória eu e tu ainda somos nós. Guardo engavetada na memória no canto mais bonito as nossas melhores lembranças. Coleciono pedaços de Sol, retalhos de mar, recortes de céu, um punhado de estrelas. Um saco bem cheio de fins de semana a dois, beijos demorados, abraços sob Lua cheia, risos largos, olhares estrelados, toques acetinados, canção cantada ao pé do ouvido. No bolso uma porção de palavras açucaradas, gestos de veludo, promessas rumo à eternidade, planos de alcance ao futuro, sonhos de verão. Um amontoado de lembranças nubladas de tempo. Eu gosto do que não é mais, e o que ainda é só passarei a gostar quando deixar de ser. Vivo debruçada no passado da minha vida.
Eu te eternizei na minha memória. Nossos olhares emoldurados com risos largos enfeitam a parede da memória. Eu e tu sem hífens de distância, sem reticências de saudade, sem ponto de fim, mas de recomeço. Pra sempre, juntos na memória. Porque recordar é dar cor novamente aquilo que passou...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Saudade

"Dentro de cada pessoa
Tem um cantinho escondido
Decorado de saudade
Um lugar pro coração pousar
Um endereço que frequente sem morar
Ali na esquina do sonho com a razão
No centro do peito, no largo da ilusão..."

Marisa Monte

Saudadezinha todos os dias bate à porta do coração, acorda logo cedo, inquieta feito moleque travesso. Entra sem pedir licença, acomoda-se, faz do peito moradia. Parece moça mas já é velha essa saudade que insiste em me fazer companhia.
Nasce com o Sol, decora o coração, enfeita-se toda pra ficar bonita, pinta as paredes da memória com lembranças coloridas. Saudade atravessa o dia voando nos ponteiros do relógio. O coração é um jardim de saudade exalando seu perfume de lembranças no ar.
O Sol esmaece no horizonte no horizonte alaranjado e a saudadezinha cansa não... Do horizonte do coração sopram ventos de saudade arejando a memória com lembranças refrescantes. Rodopios de saudade me levam envolta de lembranças nas voltas da memória. Fico horas à fio girando no meu carrossel de lembranças ao lado da saudade.
O manto negro começa a desenrolar-se sobre nós. Pontinhos de luz sorridentes bordam o céu com bolinhas faiscantes. A Lua tímida ri um riso largo sempre que uma estrela travessa tropeça do céu. Peço pra saudade pegar carona na cauda de algum cometa ou tropeçar com alguma estrela, despencando na imensidão do nada.
Saudade não quer ir embora, quer ficar aqui comigo. E de noite ela faz-se ainda mais bonita. Do coração saudade troca confissões com a memória. A noite me embala, me envolvendo no seu manto negro, posso ouvir a saudade respirando dentro de mim... O trem da saudade corta a madrugada cruzando os trilhos do meu coração.
E no dia seguinte o coração novamente acorda a sobressaltos de saudade, decorando-o com suspiros de saudade... Saudade faz das ruas do coração um Carnaval sem fim.

sábado, 26 de setembro de 2009

Ao tempo

"Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade."

Friedrich Nietzsche

Escrevo-te porque a saudade fez do meu coração moradia. Esvoaçam lembranças dançantes na memória, nublam os olhos, inundando-me com chuvas de saudade e melancolia. Saudade e melancolia cavam buracos no coração e alicerçadas nas lembranças constroem seu abrigo.
Escrevo-te porque encurralam-me essas paredes amareladas de tempo perdido, sufoca-me o perfume estonteante preso em cada lembrança e que envenena docemente. Reminiscências de recordações que repetem-se, que à memória nunca envelhecem, alucinando-me calmamente.
Escrevo-te porque quero que estendas teus braços de compreensão até os meus, envolvendo-me no teu abraço mais demorado.
Peço-te o controle dos ponteiros do teu relógio e que os meus passos possam entrar em sincronia com a sinfonia dos instantes.
Sei, o que peço é muito, mas quereria eu poder controlar os ponteiros do teu relógio para atrasar sempre a chegada do trem da saudade com seus vagões cheios de lembranças e que quando parte deixa trilhos de melancolia. Quereria eu poder sincronizar meus passos com a sinfonia dos instantes para que nenhuma nota se perdesse na fugacidade do momento, para que cada instante carregasse uma vida inteira...
Escrevo-te porque estou tonta de rodopios de lembrança levando-me envolta de saudade nas voltas da memória. A minha memória é um arabesco de lembranças e o meu coração um jardim de saudade regado com melancolia.
Escrevo-te porque cansei do filme antigo que virou minha vida.
Escrevo-te porque tenho medo de perder-me dentro desse labirinto de lembranças, afogar-me nesse mar de saudade e melancolia...
Peço-te tempo um novo tempo, um outro tempo, tempo de primavera. Quereria eu um tempo para recomeçar, para colecionar novas lembranças, lembranças com cheiro de coisa boa, ao invés daquelas já velhas e tão repetidas com cheiro de passado morto, para guardar uma saudade no peito regadas com felicidadezinha, enfeitadas com sorriso de Sol. Quereria eu encerrar esse outono dentro de mim.
Pense no meu pedido com esmero...

P.S.: Escrever-te-ia uma canção se eu conhecesse uma palavra tão árida e também tão acetinada que rimasse com tempo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Lembra

"Onde você estiver, não se esqueça de mim
Com quem você estiver não se esqueça de mim
Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim
Onde você estiver, não se esqueça de mim
Mesmo que exista outro amor que te faça feliz
Se resta, em sua lembrança, um pouco do muito que eu te quis
Onde você estiver, não se esqueça de mim..."

Roberto Carlos

Se acaso uma outra carregar nos olhos todo o azul do céu ou o verde refrescante da relva ou o amarelo mel preso às asas das abelhas, lembra do infindo amor, da calmaria e dos voos de liberdade que abrigavam meus olhos.
Se acaso uma outra tiver na face estampado o mais largo riso de Sol de Verão, lembra do riso tímido que a minha face estampava assim como a Lua minguante que o imenso manto negro estampa, e mesmo delgada encanta os amantes.
Se acaso uma outra tiver preso entre os lábios o picante sabor das aventuras, lembra que eu tinha guardado entre os lábios o terno sabor da eternidade que cada instante carrega.
Se acaso uma outra sussurrar ao pé do ouvido as palavras de veludo que tu sempre quiseste ouvir, lembra da canção que eu cantarolava pra ti, das coisas de amor que eu te dizia em silêncio, do 'Eu te amo' nunca dito, embora feito.
Se acaso uma outra carregar na pele o perfume adocicado das flores, tiver escondido nas curvas do corpo desejos fogosos, lembra do aroma sereno que eu carregava nos ombros, da manhã que escondia minha nuca, do cheiro refrescante da brisa que os meus cabelos esvoaçavam.
Se acaso uma outra tiver a pele coberta com o acetinado das estrelas, lembra que eu encobria com o veludo das rosas os espinhos de cada dia, assim como as roseiras que em meio aos espinhos floresce rosas ímpares.
Se acaso uma outra fizer o teu coração descompassar, o passo desajeitar, a respiração desconsertar, borboletas bailarem no estômago, a face corar-se, os olhos serenarem estrelas, o riso enlarguecer, as mãos tremularem e o corpo arrepiar, apenas lembra de mim...
Guardas no canto mais bonito da tua memória, decorado com a mais bonita saudade, as mais bonitas lembranças nossas. Não deixe que eu morra em ti.
Ah não meu amor, não esqueça de mim...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Uma velha canção

"Num velho disco a vida se desfaz
Em poucos minutos
Pra onde aquele tempo te levou
Também vou
Pode ser numa canção
Pode ser no coração
Eu só quero ter você por perto."
     
Pato Fu
     
No rádio toca uma velha canção
A nossa canção por mim nunca esquecida
A canção toca na vitrola do coração
Uma saudade enternecida

Esvoaçam na memória lembranças tua
Dança comigo um tempo perdido
E nos braços da saudade mergulha a lembrança de data nua
E o coração de ternura fica embebido

Sinto tua mão encostrar na minha
O sussurrar ao pé do ouvido a alma arrepia
No teu olhar serenam estrelinhas
A canção o peito acaricia

Inebrio-me no teu estonteante cheiro amadeirado
Tuas palavras abraçam-se com teus gestos
O riso largo deixa o semblante corado
A canção te traz pra perto

A canção tem fim
Desfaz a lembrança que a saudade refez
E a saudade cantarola dentro de mim
Que só queria te ter outra vez...

sábado, 1 de agosto de 2009

Depois de muito tempo

"É triste saber que um dia vou ver você passar e não sentir cada milímetro do meu corpo arder e enjoar. É triste saber que um dia vou ouvir sua voz ou olhar seu rosto e o resto do mundo não vai desaparecer. O fim do amor é ainda mais triste do que o nosso fim."
     
Tati Bernardi
     
Então virá o dia que tu vais passar por mim e eu não vou sentir uma alegria desvairada percorrendo inquieta as ruas, travessas e vielas do corpo com destino ao coração, fazendo-o saltar agitado, batendo acelerado no compasso de uma escola de samba acompanhado do balé de borboletas, flutuando graciosas no estômago.
A face não vai pintar-se com aquele corado bonito da emoção que mistura-se com a timidez, nem enfeitar-se com aquele riso largo de menina boba, nos olhos não vão serenar estrelas cintilantes iluminando o negrume deles.
As mãos não vão suar ansiosas à espera da companhia das tuas, nem meus braços vão desejar serem acolhidos pelos teus, nem minha pele vai desejar ser afagada com teus carinhos, eu não vou sentir arrepios de felicidade na presença tua, nem as pernas trêmulas ao aproximarem-se de ti, a voz não vai gaguejar, embaralhando as palavras.
Lembranças não esvoaçaram dançantes na memória.
Então virá o dia que tu vais passar por mim e eu sentirei apenas uma alegria inconsciente, mansa, caminhando serena pelo corpo sem pressa de chegar ao coração e quando chegar encontrará um coração amiúde de amor, mar de calmaria, solitário do balé de borboletas.
A face continuará pálida. Semblante pintado com tranquilidade, enfeitado com um riso delgado, os olhos cobrirão-se com o véu de uma noite nublada.
As mãos ficarão imóveis à espera apenas de certezas, meus braços abrirão-se para o novo, abraçados ao recomeço, minha pele será afagada pela brisa que sopra em direção à outro caminho, arrepiando o corpo a brisa fresca cheiro alegriazinha nova. As pernas ficarão firmes, a voz falará indiferente e as palavras soarão como silêncio.
Apenas um branco na memória...
Então virá o dia que tu vais passar por mim e eu saberei que chegou ao fim aquele amor, serás lembrança morta, passado murcho, recordação esfumaçada pelo tempo, e vai doer... Tanto!
Tempo, não apague da memória as velhas recordações que guardo dele, deixa ao menos eu ter lembranças...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Do que ficou na fotografia

"O que vai ficar na fotografia
São os laços invisíveis que havia
As cores, figuras, motivos
O sol passando sobre os amigos
Histórias, bebidas, sorrisos
E afeto em frente ao mar."
     
Leoni
     
Tu me acolhias num abraço forte abrigando as dores de mulher, os medos de menina, tu me acalmavas num gesto de afeto silenciando as minhas incertezas. Eu afagava tuas mãos com o veludo das minhas, um pedido secreto de sempre.
Serenavam estrelas no teu olhar de menino, um riso faceiro das bobeiras de amor enfeitava tua face. O meu olhar salpicado de luz, iluminando o riso tímido, corando a face a emoção do sentimento.
Abraçados sobre a relva recortados contra um céu azul pálido borrado com nuvens de caramelo, nuances lilás, rosa, laranja, vermelho. O Sol debruçado no poente, beijando ao longe o mar sereno, misturando os 'azuis'... Uma linha alaranjada arrematou o horizonte, costurando o fim de tarde. A Lua pequenina acompanhada de uma estrela solitária saltou no céu querendo ser amante do Sol...
O instante eternizado pelas lentes da câmera fotográfica. O momento preso ao porta-retrato. O que ficou pra trás guardado na fotografia. O sentimento emoldurado em velhas lembranças.
Cortando nossos risos, a marca da ira. Avança o tempo pelos cantos da foto, fazendo a relva um tapete de outono, manchando a foto com rugas de tempo perdido.
O abraço, o gesto, o afago congelados na foto, dançantes na memória, imóveis no presente. O olhar brilha morto, riso sem alegria, vida paralisada. Chuva fina de lágrimas que escorre pela face pingando tristeza na foto.
O céu desbotou. O Sol envelheceu. O horizonte alaranjado empalideceu. A Lua pequenina jamais foi cheia. A estrela continuou solitária.
Desgasta o tempo a fotografia. Desfaz o sentimento. Descose eu de tu.
E o que ficou na fotografia foi a felicidade que queria ser eterna e hoje é só lembrança solta que brinca com a saudade...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Distantes de nós

"Somos somente a fotografia.
Dois navegantes perdidos no cais
Distantes demais."
         
Lenine
     
Somos um presente que ficou perdido no ontem, um futuro sem amanhã. Somos um amontoado de velhas recordações, lembranças amarelecidas engavetadas na memória.
Somos a felicidade de um instante presa a um porta-retrato, eternidade breve emoldurada com os traços da saudade. Somos tudo o que passou, desconcertados pelo tempo.
Somos um começo sem fim, um conto sem ponto, sentimentos que ainda dançam no coração ao som da valsa do fim. Somos o silêncio da nossa indiferença, a distância entre a mágoa e o perdão.
Somos promessas não cumpridas, planos desfeitos, sonhos interrompidos, palavras sufocadas, paixão reprimida. Somos a canção esquecida num disco empoeirado, a rosa seca guardada entre as folhas de um livro aprisionando o aroma do momento, as cartas que abrigam o veludo das tuas palavras nunca mais ditas, um passado próximo, saudade inebriante.
Somos a pausa do instante, a história que se repete com os mesmos movimentos. Somos olhares, abraços, toque, afagos, sussurros, gargalhadas, beijos congelados pelas lentes imutáveis da memória.
Somos o amor ferido pelo tempo, excesso de ausência, vazio de presença. Somos desencontro, distantes de nós, perdidos de nós...
Há um hífen entre nós.