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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

E eu fiquei sambando lembranças

"Ela desatinou, viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando
E ela inda está sambando
Ela desatinou, viu morrer alegrias, rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando e ela inda está sambando..."
     
Chico Buarque
     
Mais uma vez a lembrança daquele Carnaval faz folia na memória. Minha memória é uma larga avenida colorida por onde desfilam dançantes e frenéticas lembranças ao som da batucada da bateria ritmada desse coração. Lembranças empoeiradas de um Carnaval de cinzas. Eu me visto com a velha fantasia, a fantasia de felicidade que se rasgou ficando em trapos e o tempo desbotou. A fantasia amarelecida de ontem. E eu me enfeito do que já não somos nós. E me maquio com um riso, mas como maquiar estrelas no céu escuro e nublado de um olhar? Como pintar a face pálida com o corado da emoção? Com que pincel se traçam os sonhos? Que cor refaz o que o tempo desfez? E eu me enfeito com uma alegria triste. O confete e a serpentina é uma chuva de tristeza e a purpurina é lágrima que ilumina a face com um brilho ofuscante. O colorido é preto e branco. A canção ficou esquecida nos tamborins de outro Carnaval. O bloco é da saudade.
E eu tento varrer a poeira rebrilhante da memória, mas aquele Carnaval não tem fim cá dentro. E eu fiquei cantando saudade, sambando lembranças...
A fantasia se rasgou, desbotou, o encanto se quebrou, o confete e a purpurina para longe o vento soprou, a purpurina a água lavou, o colorido esmoreceu, a canção nunca mais tocou, mas eu fiquei cantando saudade, sambando lembranças.

sábado, 4 de abril de 2009

Um carnaval pra toda vida

"Mas o mais triste é essa tristeza toda colorida dos carnavais."
         
Mario Quintana
       
A luz tonta do Sol seguia os passos fervorosos da multidão. Nuvens de algodão doce estampavam o céu azul-felicidade. Uma nuvenzinha e outra sorria um sorriso tímido. O horizonte parecia enfeitar-se com lantejoulas multicoloridas - Rosa, lilás, amarelo, laranja... O vento soprava ares de alegria contagiante, colorindo a face com purpurina. O dourado do Sol misturava-se ao prateado da Lua num fim de tarde. E uma estrela bêbada sempre tombava do céu entre nós.
O colorido do som fazendo cócegas ao pé do ouvido. A musicalidade da cor fazendo graça aos olhos.
O passo no compasso da folia. Sambavam borboletas no estômago. O coração acompanhava o tum-tum-tum da batucada. As mãos suavam ansiosas a espera da companhia das tuas. Os olhos salpicavam-se de luz ao ver os teus. Um riso faceiro não cabia na face. Num beijo tua presença presa entre meus lábios. Num abraço a felicidade do instante agarrada por nós.
Caminhávamos de mãos dadas com a eternidade, numa promessa de sempre vestimos a fantasia de que aquele carnaval seria eterno, pintamos nossos planos com alegria e afeto, penduramos guizos no coração.
E nossa certeza foi tocada pelo áspero da desilusão. O samba desafinou, a batucada parou, a fantasia desbotou, o amor desfez-se com o fim daquele carnaval.
A promessa bailou no ar, espatifando-se no chão, o sempre durou o breve tempo de um instante, nossos planos borrados pelo tempo.
O amor colorido de cinza. E aquele carnaval invade outros carnavais... Rebrilham lembranças colorindo de saudade a folia que faz-se triste. Mas se tu voltas é fevereiro todo o ano...