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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Teu nome

"A noite
enorme,
tudo dorme,
menos
teu nome."

Paulo Leminski


MMeia-noite. Corpo e alma duelam entre si ao som da sinfonia de silêncios noturna. O corpo tenta inutilmente adormecer no aconchego caloroso dos lençóis, sufocar o desassossego no travesseiro. A alma resiste ao embalo sonolento da noite, balança-se incontrolável, ela quer festejar. O corpo rende-se. A alma cantarola inquietação. O coração insone bate descompassado a sobressaltos de saudade, com seus guizos alvoroçados tilintando lembranças na memória, ressoando a velha melodia de recordações desbotadas.
Respiração pausada interrompida por suspiros de saudade. Cócegas na alma. No peito, um frenesi embebeda-me. O corpo deseja acalmar-se com o toque aveludado da tua pele. Meus braços desejam encontrar-se no teu abraço. As mãos desejam repousar na maciez das tuas. Meus pensamentos desejam ser silenciados pelo cafuné anestesiante feito na nuca. O riso deseja enlarguecer-se junto ao teu. Meus olhos desejam debruçar-se no horizonte estrelado do teu olhar. Meus ouvidos desejam ouvir aquela canção falada de palavras adocicadas. O coração deseja compor outros versos para a memória ao lado teu. Minha alma deseja dançar com a tua.
A noite dorme silenciosa, e teu nome me invade fazendo Carnaval, uma batucada de inquietação toma conta de mim. O coração toca a mesma nota de saudade, pendura guizos de lembrança, tilintando velhas recordações na memória empoeirada. Teu nome chega sem hora marcada, entra sem pedir licença e acomoda-se fazendo do peito moradia. Teu nome me invade e fica - tatuagem, no peito, na cabeça... A noite dorme silenciosa e teu nome não anoitece, teima em amanhecer dentro de mim. O negrume aos poucos cede espaço para o cinza escuro mesclando-se com o azul desbotado fazendo nascer um céu azul clarinho com retalhos de nuvens brancas espalhados por ele, no horizonte o Sol espreguiça-se para espiar a despedida da Lua, amanheceu e teu nome adentrou o dia, quisera eu que ele tivesse partido de carona com as estrelas... Só teu nome não adormece no esquecimento.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Da lembrança de esquecer

"Que é que eu vou fazer pra te esquecer?
Sempre que já nem me lembro, lembras pra mim
Cada sonho teu me abraça ao acordar
Como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus vai apagar..."

 
Caetano Veloso

Volta e meia esquecimento vem brincar de ciranda com a minha memória. Lembrança tenta entrar na brincadeira de roda, e roda tonta desmaiando no esforço para lembrar, puxa a cantiga e logo desafina, ensaia o passo e logo descompassa. A lembrança não desiste de tentar e quando penso que esqueci, um rodopio de recordações areja a memória, uma lembrança tua esvoaça e faz rasgar com saudade um coração de papel. Outra vez um doce engano, atravesso horas a fio perdida em esquecimento e então um acre desengano, teu nome brinca de ciranda com a memória, atravesso horas a fio rodando nas voltas da memória envolta de ontens perdidos.
E quando penso que esqueci tu vens lembrar. Uma parte de ti permanece viva na memória - latejante. E essa parte de ti não quer morrer sufocada em esquecimento.

sábado, 1 de agosto de 2009

Depois de muito tempo

"É triste saber que um dia vou ver você passar e não sentir cada milímetro do meu corpo arder e enjoar. É triste saber que um dia vou ouvir sua voz ou olhar seu rosto e o resto do mundo não vai desaparecer. O fim do amor é ainda mais triste do que o nosso fim."
     
Tati Bernardi
     
Então virá o dia que tu vais passar por mim e eu não vou sentir uma alegria desvairada percorrendo inquieta as ruas, travessas e vielas do corpo com destino ao coração, fazendo-o saltar agitado, batendo acelerado no compasso de uma escola de samba acompanhado do balé de borboletas, flutuando graciosas no estômago.
A face não vai pintar-se com aquele corado bonito da emoção que mistura-se com a timidez, nem enfeitar-se com aquele riso largo de menina boba, nos olhos não vão serenar estrelas cintilantes iluminando o negrume deles.
As mãos não vão suar ansiosas à espera da companhia das tuas, nem meus braços vão desejar serem acolhidos pelos teus, nem minha pele vai desejar ser afagada com teus carinhos, eu não vou sentir arrepios de felicidade na presença tua, nem as pernas trêmulas ao aproximarem-se de ti, a voz não vai gaguejar, embaralhando as palavras.
Lembranças não esvoaçaram dançantes na memória.
Então virá o dia que tu vais passar por mim e eu sentirei apenas uma alegria inconsciente, mansa, caminhando serena pelo corpo sem pressa de chegar ao coração e quando chegar encontrará um coração amiúde de amor, mar de calmaria, solitário do balé de borboletas.
A face continuará pálida. Semblante pintado com tranquilidade, enfeitado com um riso delgado, os olhos cobrirão-se com o véu de uma noite nublada.
As mãos ficarão imóveis à espera apenas de certezas, meus braços abrirão-se para o novo, abraçados ao recomeço, minha pele será afagada pela brisa que sopra em direção à outro caminho, arrepiando o corpo a brisa fresca cheiro alegriazinha nova. As pernas ficarão firmes, a voz falará indiferente e as palavras soarão como silêncio.
Apenas um branco na memória...
Então virá o dia que tu vais passar por mim e eu saberei que chegou ao fim aquele amor, serás lembrança morta, passado murcho, recordação esfumaçada pelo tempo, e vai doer... Tanto!
Tempo, não apague da memória as velhas recordações que guardo dele, deixa ao menos eu ter lembranças...