"Apenas um caminhante na estrada-vida. Mas se quiserem saber de mim, sou ser humano sem virtudes e sem rótulos. Um todo, não parte. Um gerúndio. Um ser-sendo. Sendo em fé, fás, lás, sóis e si, bemóis também. Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo."
Michel Foucault
Fujo a enquadramentos, classificações, definições, explicações e entendimentos. Fujo a mim mesma. Quem sou eu? Eu estou sendo. A que fui ontem não é a mesma que estou sendo hoje e a que serei amanhã não é a mesma que fui hoje. Sou inconstante e mutável. Eu me conjugo no gerúndio. Minha essência é a inconstância. Gosto de mudanças, mas às vezes o novo me assusta. Sou feita de começos, meios e recomeços. O fim? E o que é o fim senão um novo começo. Entendo que não me entendo, e esse não entendimento às vezes me sufoca, mas não me agride. Estou sempre me buscando, me encontrando e me perdendo. Às vezes me encontro quando me perco. Às vezes me perco quando me encontro. Sou assim feita de encontros-despedidas. E continuo me buscando como se estivesse perdida de mim mesma. Tenho medos de menina - do escuro, de fantasma e medos de mulher - de envelhecer, da solidão. Não gosto de perder, mas foi com as minhas derrotas que amadureci. Já feri, já me feriram, já me feri, e aprendi que o tempo é o curativo das feridas, mas só quem pode cicatrizá-las somos nós. Fiz dos meus olhos um porta-jóias garimpando a beleza da vida nas coisas singelas, da minha memória um relicário de lembranças ternas, do meu coração um realejo tocando notas de saudade. Coleciono saudades. Saudades do que vivi e do que ainda não vivi, do que vivi porque passou não volta mais, do que ainda não vivi porque sei que um dia virá e em seguida o tempo levará. Saudade é uma fita de seda que sai do coração prendendo-se ao passado num laço bem bonito. Para mim, recordar é dar cor outra vez aquilo que o tempo desbotou, e gosto de recordar, mas aprendi a ser desprendida. Podo minhas mágoas, entretanto ainda cultivo muito ódio, mas sei que esse ódio nada mais é que um amor que adoeceu. Minha felicidade brota de dentro pra fora, semeio a semente da felicidade no coração e deixo florescer nos olhos. Bordo eternidades com pontos de instantes. Costuro futuros arrematando presentes. O passado é uma máquina velha que não costura mais, e ainda assim guardamos mesmo sabendo que não costura sequer remendos. Não gosto do meio-termo, do morno, do mais ou menos, do cinza, gosto do todo, do quente, do mais, do arco-íris e seu colorido, quero que as pessoas se entreguem por inteiras - de corpo e alma. Eu mergulho de cabeça no instante. Eu quero demais, não me contento com migalhas, com restos. Sou incompleta e é a minha 'incompletude' que me completa. Sou feita de interrogações, vírgulas, reticências, mas nunca do ponto-final. E as minhas perguntas são as minhas respostas. Sou movida por fomes e sedes insaciáveis de descobertas. Minhas fomes me alimentam, minhas sedes me embebedam. Eu sou a vastidão do não saber, a incerteza do talvez, o mistério do segredo. Eu estou além das palavras. Talvez eu seja uma pergunta que não deseja ser respondida, um conhecimento que não deseja ser entendimento, uma incerteza que não deseja ser exatidão, um segredo que não deseja ser revelado, um mistério que não deseja ser desvendado. Talvez eu seja uma incógnita.
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